O deputado federal Betinho Rosado é um representante da política tradicional norte-rio-grandense. Atualmente cumpre o seu quarto mandato na câmara federal. Em 1995 chegou em Brasília, pelo PFL, atual Democratas, partido ao qual é filiado há 23 anos e que agora quer deixar.
O político mossoroense diz não conseguir "oportunidades" para crescer na legenda nacionalmente. A exemplo de outros parlamentares do estado, Betinho inicia a procura por uma nova casa, no entanto, afirma que a sua saída do DEM não significa o rompimento com o líder do partido no estado, o senador José Agripino.
Qual é a importância do encontro da Unale (União Nacional dos Legisladores Estaduais)?
Betinho Rosado - A Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte, por meio do seu presidente, o deputado Robinson Faria (PMN), mostra engajamento com os principais problemas do Rio Grande do Norte. E se existe uma dificuldade que precisa ser esclarecida, ela está nesse estado. Porque até agora me parece que a parte da transposição para o rio Apodi ainda não foi licitada, ou ainda não está prevista essa licitação. São dois ramais: um que vem da Paraíba, que vai chegar até rio Açu-Piranhas, cuja obra está em licitação, e outra que vem pelo rio Apodi.
O primeiro ramal favorece também o Rio Grande do Norte, mas tem o outro que deságua no Apodi...
Betinho Rosado - O ramal que vem por Pernambuco, Paraíba e chega até o estado vai desaguar no rio Açu ou Piranhas, e vai chegar até a barragem Armando Ribeiro Gonçalves (em Açu). Futuramente, em outras barragens que foram construídas no rio Piranhas, como a Oiticica. O outro é um ramal que vem pelo interior de Pernambuco e vai para Apodi, pelo rio Mossoró-Apodi, na altura de Major Sales.
Os dois beneficiam o RN?
Betinho Rosado - Os dois beneficiam, mas no primeiro nós estamos brigando com mais dois estados. Como o rio Apodi nasce e morre no Rio Grande do Norte, esse ramal beneficia unicamente nosso estado, então ficamos meio isolados. Se não fizermos uma ação que garanta a inclusão da bacia do Apodi nesse momento, provavelmente não tenhamos esse ramal tão importante.
Isso não está no projeto?
Betinho Rosado - Está no projeto, mas ainda não foi licitado. Num determinado instante, falou-se que ficaria para uma segunda etapa. Mas a primeira demorou 150 anos. Além disso, na primeira etapa nós temos conosco Pernambuco, Ceará, Paraíba, Bahia, todos brigando, uns contra e outros a favor. Na segunda etapa, teríamos somente uma parte do RN, já que a parte do Vale do Açu já estava atendida.
Esse seria um bom assunto para tratar com o ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira, que não vem a Natal. Quem vem é o secretário de Recursos Hídricos do ministério, João Santana Filho.
Betinho Rosado - Estou aqui exatamente para ir para lá mostrar a absoluta necessidade de que esse outro trecho tenha seu processo licitatório inciado de imediato.
A transposição é uma obra sem volta?
Betinho Rosado - Estimo que sim. É muito importante para o Nordeste como um todo, uma garantia de água. Temos, por exemplo, a barragem de Santa Cruz. Essa barragem, da forma que foi planejada, tem condições de beneficiar aproximadamente 3.000 hectares com irrigação. Quando a gente faz a transposição e cria essa sinergia hidráulica, a barragem quase que triplica a possibilidade de irrigação, passando para mais de 7.000 hectares. Isso mostra como a transposição potencializa a capacidade dos reservatórios que nós já temos de atender a população.
Ontem (4) o Tribunal Superior Eleitoral concedeu a justa causa solicitada pelo deputado federal Rogério Marinho para sair do PSB. O senhor estava aguardando essa decisão para também tentar sair do seu partido. Por que o senhor quer deixar o Democratas e por que analisa a possibilidade de um pedido de justa causa?
Betinho Rosado - Estou no Democratas há 14 anos. Nesse período, nós recebemos pouquíssimas missões. Então eu entendo que o DEM é um partido que beneficia apenas um determinado grupo político em nível nacional. Agora mesmo nós tivemos uma demonstração muito clara disso. O deputado federal Ronaldo Caiado foi eleito líder da bancada e o deputado Edmar Moreira derrotou no plenário o candidato que o DEM tinha indicado para a segunda vice-presidência. Edmar terminou renunciando e quando a gente tinha uma expectativa que novos nomes pudessem representar o partido, o DEM aparece com Antônio Carlos Magalhães Neto para ocupara a segunda vice-presidência, mostrando que é sempre aqueles mesmos que estão ficando no DEM. Em vista disso, por não ter oportunidades em nível nacional, é que pedi o meu afastamento por justa causa. Aleguei, entre outras coisas, que o DEM havia mudado ideologicamente porque havia sido um dos criadores da CPMF e agora o partido estava votando contra o imposto. Esse assunto está sendo discutido já no Tribunal Eleitoral. O ministro Marcelo Ribeiro é o relator e estamos aguardando o parecer dele. Na verdade, estou perguntando à corte eleitoral se partido político tem ideologia ou não.
O senhor é um liderado aqui no estado pelo senador José Agripino. Quando pede para sair do DEM, não cria um problema, do ponto de vista político, com ele? Há alguma insatisfação com a liderança do senador aqui no RN?
Betinho Rosado - Nenhuma. Meu objetivo é deixar o DEM, não o senador José Agripino. Sou amigo dele e pretendo continuar a fazer política com ele, que é uma liderança tranquila, de um julgo muito bom, uma pessoa direita, que cumpre a palavra.
Fala-se que um dos motivos que o leva a pedir a justa causa seria o desejo do senhor de entrar na base do governo Lula, porque é difícil ficar na oposição, principalmente em Brasília.
Betinho Rosado - Essa é outra questão interessante. Os partidos de oposição de certa forma tem um entendimento também com o governo, seja na liberação de recursos, seja no prosseguimento de algumas ações de interesse de determinadas regiões. Dentro do DEM, eu nunca tive nenhum apoio para que as ações que eu defendia na Câmara tivessem prosseguimento. Daí a necessidade de buscar apoio junto ao governo federal. No primeiro mandato do presidente Lula, quando fizemos oposição, nós não conseguíamos liberar os recursos que colocávamos no Orçamento. Um deputado federal de uma bancada pequena como é a do Rio Grande do Norte coloca cerca de R$ 25 milhões no Orçamento todo ano. Esse dinheiro representa obras importantíssimas para o estado ou governo do RN. Quando passei a assumir o mandato depois do falecimento do deputado Nélio Dias, tenho conseguido liberar recursos todo ano. No Orçamento do ano passado, conseguimos uma emenda R$ 17 milhões para a construção da Cidade da Ciência, em Mossoró, e mais R$ 8 milhões para várias prefeituras do Oeste potiguar. Então trabalhar para o governo significa também ter mais força para ajudar o crescimento, desenvolvimento e a melhoria da condição de vida do potiguares.
Fala-se muito também que a sua saída do DEM seria uma estratégia para ocupar uma legenda que lançasse o nome da senadora Rosalba Ciarlini, hoje também do DEM, para Governo do Estado.
Betinho Rosado - Não há nada nesse sentido. A candidatura da senadora é conversada porque nas últimas eleições do RN, o senador que está no meio do mandato (Garibaldi Alves) disputou o Governo do Estado. Depois, a senadora tem um currículo muito interessante porque quando foi prefeita de Mossoró, ajudou a transformar a cidade. Além disso, como ela disputou recentemente uma campanha majoritária a nível de Estado, é um nome sempre lembrado. Agora, a candidatura de Rosalba precisa do apoio do senador José Agripino.
O senhor acha que cabe, numa aliança para 2010, uma situação em que o DEM reivindique duas vagas majoritárias importantíssimas como governador e senador?
Betinho Rosado - O RN tem hoje três grandes grupos políticos. O do senador José Agripino, do senador Garibaldi Alves (PMDB) e da governadora Wilma de Faria (PSB). Andando mais um pouco, nós temos o presidente da Assembleia Legislativa, Robinson Faria (PMN), que tem também um grupo interessante, e o deputado João Maia, que tem manifestado o desejo de concorrer ao governo, embora a gente ainda não veja com nitidez o seu grupo político de sustentação. Se nós temos cinco grupos políticos, nós vamos ter na próxima eleição, de cada lado, quatro cargos majoritários: dois senadores, um governador e um vice. Portanto, teremos oito vagas. Para preencher oito vagas com cinco grupos políticos, é preciso que um grupo indique mais de um político para cargo majoritário.
Mas o coeficiente para o Governo e para o Senado é bem maior nessa matemática...
Betinho Rosado - Se você fizer uma retrospectiva, verá que várias vezes um único grupo político indicou mais de uma pessoa para cargos majoritários.
Agora, tem gente que diz que é uma situação complicada, que um senador pode atrapalhar o outro.
Betinho Rosado - Isso aí quem vai dizer é a campanha, o povo. Essa especulação que nós estamos fazendo aqui, é preciso combinar com o povo. Sei que uma coisa não atrapalha a outra.
Mesmo deixando o Democratas, o senhor vai apoiar o projeto de José Agripino e de Rosalba Ciarlini?
Betinho Rosado - O projeto do senador José Agripino sim, é uma candidatura certa. O da senadora existe mais como uma possibilidade. Nesse momento, eu já estou dizendo que vou estar junto com José Agripino no projeto dele de reeleição.
A possível candidatura de Rosalba vai unir os Rosados? Desde a eleição do seu pai,
Dix-Sept Rosado, que foi governador do Estado, os Rosados se dividiram em Mossoró...
Betinho Rosado - A divisão foi em 1986. Quando Laíre Rosado era deputado federal, um repórter perguntou isso a mim e a ele, e eu respondi que a hora de os grupos se unirem era quando um conseguisse uma candidatura do governo do Estado. Agora, quem está na frente desse comando é Sandra Rosado, que tem o mandato de deputada federal, e eu ainda não vi uma declaração dela a respeito disso. Creio eu que é muito difícil, numa cidade como Mossoró, você apoiar um candidato adversário ao candidato da cidade. Então, sendo Rosalba candidata, os adversários teriam muita dificuldade em apoiar outro candidato. Mas não é impossível. Agora, Mossoró é uma cidade dividida. Os 85% de votos que ela teve não representam essa divisão. Ela é mostrada na eleição majoritária: Rosalba foi eleita prefeita com 54% dos votos; Fafá Rosado, que foi adversária dela e eleita dessa vez, teve 53% dos votos. Esses 85% que Rosalba teve reflete muito mais um erro de marketing de Fernando Bezerra, que a colocou como "a senadora de Mossoró", quando ele era "o senador do Estado", do que a divisão da cidade.
*Matéria publicada no jornal Nasemana - Edição 50 - de 7 a 13 de março de 2009