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“Eleição nunca se decide por antecipação”

O jornalista Rubens Lemos Filho, o Rubinho, fala sobre seu livro "O homem obvio", futebol e politica.

Por Alan Oliveira e Iranilton Marcolino
Tamanho do texto: A
Fotos: Vlademir Alexandre
Acostumado à estressante rotina de secretário de Comunicação do Governo, o jornalista Rubens Lemos Filho, o Rubinho, deu uma breve pausa para lançar esta semana o seu segundo livro, O Homem Óbvio, de crônicas. Na última quarta-feira, ele recebeu o Nasemana para uma entrevista, na qual fala sobre o prazer de escrever e muito do que aprendeu nesses anos de jornalismo. Sem esquecer do futebol e, claro, da política.

Nasemana: Rubinho, você vem com o seu segundo livro "O Homem Óbvio". O por quê desse nome?

Rubens Lemos - Primeiro eu queria começar agradecendo a todas as pessoas que foram ao lançamento do livro. O Homem Óbvio foi a decisão de expor o pensamento de uma pessoa comum e suas concepções sobre a vida em seu sentido geral e sobre as coisas mais simples da vida, que são o próprio trabalho, o dia-a-dia, música, literatura, cinema, futebol. Essas são as coisas que compõem a vida de um homem simples, comum, um homem sem maiores pretensões, que tem as suas próprias verdades sobre o que ele vê, enxerga, convive. Foi a necessidade de colocar isso numa seleção muito mais por sugestões, iniciativas dos amigos do que por vontade própria, porque realmente não tenho é a vaidade literária. Isso nasceu de uma maneira totalmente diferente do primeiro livro.

Nasemana - Você acha que as crônicas vêm ganhando espaço no Estado?
RL- Eu acho. Porque a crônica, embora seja um estilo até certo ponto discriminado no meio acadêmico, formal, é uma maneira bem peculiar de cada escritor expressar o pensamento. A crônica é um pensamento posto num papel, mas não colocada de forma seca. Na crônica você pode até adjetivar com um pouco mais de frequência do que em outros textos, enfim, eu não gosto do rótulo fulano de tal, o poeta, fulano de tal, o cronista, beltrano, o articulista, fulano de tal, o romancista. Não. Eu escrevi. A crônica é uma maneira de expressar em poucas palavras aquilo que se sente e pensa. A crônica jamais pode ser menosprezada, porque tem nomes que vêm de longe. Antônio Maria, pra mim o maior cronista brasileiro. Comecei a ler muito cedo , não por ser precoce, mas por vocação já que meu pai era um escritor e gostava muito de ler. Ele (Antônio Maria) sabia expressar a melancolia com muita ironia, humor, sarcasmo. Pra mim foi o grande mestre de todos os cronistas. Também Carlos Heitor Cony, que em vinte linhas escreve o que o convencional coloca em 200.



Nasemana - Há uma crônica que você jamais escreveria?

RL- Eu acho que tem algumas coisas que a gente deve separar. Jamais, pela função que eu ocupo, escreveria para atingir qualquer agente público ou inimigo pessoal, por qualquer motivo que viesse a me contrariar ou expressar alguma coisa diferente. Já escrevi sobre algumas coisas que eu considero absurdas, mas sem identificar ou ofender a honra das pessoas. Eu acho que quem tem o mínimo de espaço para escrever, deve partir do princípio de que o outro não tem aquela arma que você tem e acho que qualquer gênero, jornalismo, literatura, não pode ser usado como arma nem como interesse pessoal nem qualquer outro que seja. Eu jamais escreveria para atender qualquer interesse individual meu.

NS - Qual a crônica mais difícil que você fez?
RL - A crônica mais difícil não está no livro porque foi muito recente e o livro estava na gráfica. A mais difícil, que acho que não ficou boa, foi sobre os dez anos da morte do meu pai, que foi no dia quatro de junho. Eu sabia que tinha que prestar alguma homenagem de alguma forma e escrevi sem ter um gancho maior. Escrever sobre a saudade é muito difícil. Eu sabia que tinha que escrever, mas foi muito difícil. Naquela hora, eu vi aqueles dez anos passarem em 10 minutos ou como se fossem 10 séculos. A ausência de um pai, de um ente muito importante, é uma coisa que em 50 livros de crônica não se consegue descrever e expressar.

Nasemana - Você frequenIsso deve ter lhe dado muito material. Em algum momento, sentiu pena de ter que deixar de lado coisas importantes na hora de escrever?
RL - Não, de jeito nenhum, nunca. Até porque eu já fui repórter político, editor político, já presenciei inúmeras coisas, mas sempre nas funções públicas que eu assumi, preservei a privacidade. Jamais eu iria me aproveitar de um momento em que eu estava ali, por merecer a confiança de quem estava abrindo a porta pra algum assunto que não deveria vir a público, ou algum momento de fragilidade, de força de expressão maior, uma discussão mais acalorada. Eu não estaria sendo honesto comigo mesmo se eu transpusesse isso pro papel. De 1995 a 2001, eu fui secretário adjunto do então governador Garibaldi filho e saí por algumas circunstâncias que foram superadas, felizmente. Mas ninguém me viu passar nada do que acontecia internamente. Isso é um segredo que deve morrer com o assessor. E da mesma forma com a governadora Wilma. Eu fico muito honrado e feliz de ter com ela uma reação de extrema confiança e lealdade. Talvez ela saiba da minha postura e por isso me participa de algumas coisas que eu tenho o equilíbrio, sensatez e decência de nunca revelar. O que eu tenho saudade é de algumas reportagens que eu poderia e quis ter feito e pelas circunstâncias que vocês sabem muito bem que sempre dominaram a imprensa no estado pequeno e radical como o nosso, não pude fazer. Eu já tive verdades na minha mão que contrariavam a linha editorial do jornal e que me chatearam bastante. Hoje não. Eu era muito novo. Na época eu tinha 18, hoje eu tenho 38. A independência jornalística é uma coisa que não existe de maneira nenhuma. Seja aqui, em São Paulo, Rio de Janeiro, Nova York.

Nasemana - No seu livro tem até uma crônica que relata desses episódios na sua época de repórter policial.
RL - Eu posso dizer que naquela crônica , eu conto um fato que aconteceu em um determinado momento da minha vida como repórter no anos 90 e quis homenagear um dos meu melhores amigos e umas das pessoas que mais representam o RN acima de qualquer questão política, que é o Dr. Manoel de Brito. O secretário de segurança da história é ele. Ele viveu nos escaninhos do poder durante várias e várias décadas, em paz com todos e com ele mesmo. Ele me atendia com muito respeito e era muito acessível.



Nasemana - O Homem Óbvio é um livro que você fez a pedido de amigos que o incentivaram. Se esses amigos pedirem para fazer um trabalho de comunicação sobre o assessor do Governo do Estado?

RL - Eu não teria interesse. Um dos melhores livros que eu li de jornalismo foi 1000 dias de Solidão, de Cláudio Humberto , na época que ele foi assessor de imprensa de Fernando Collor de Melo. Eu tenho certeza que ele não pôde contar ali tudo o que ele viu. O livro tem que ser feito com toda liberdade, colocar o que viu, de modo a não ferir sua própria consciência. Eu não vou estar aqui, participando de um governo, compartilhando as dificuldades, as bonanças, acompanhando o dia-a-dia e e escrever as memórias do governo. Eu não vou colocar as coisas pra atingir as pessoas que me deram confiança. Não acho correto.

Nasemana - Nos seis anos como secretário do Governo Wilma e de Garibaldi, como é que você faz para você gerenciar crises, denúncias na imprensa, que chegam à opinião pública?
RL- Bem, eu procuro me valer da máxima que aprendi nos primeiro dias que estive na redação do jornal. E quem estava comigo nesse período em 1988 foi Diógenes Dantas. Era chefe de reportagem e eu repórter de esportes e haviam reuniões periódicas na redação. O superintendente na época era Antônio Melo e o editor era Alfredo Lobo. Então, desde essa época que eu procurei dar espaço aos dois lados da notícia. Hoje, lamentavelmente, eu vejo pouquíssimos casos, mas existem, que você noticia uma denúncia e só procura o alvo da denúncia no outro dia, quando a notícia foi publicada. Isso aconteceu comigo, eu senti na pele. Eu fui acusado de um fato e só procurado no dia seguinte quando a notícia já era manchete, já estava sendo repercutida no rádio. O jornalismo não nasceu para servir ninguém e sim o leitor, que vai tirar a conclusão de quem está com a verdade.

Nasemana - Você já atuou dos dois lados, como repórter, editor e assessor há muito tempo. Qual a avaliação que você faz da imprensa do RN?
RL- O jornalismo do RN é tradicionalmente talentoso. Você pode prestar atenção que o RN já exportou muito nomes que fizeram, farão e fazem sucesso fora do nosso eixo. Eu não tenho maiores críticas a fazer aos colegas. Eu lamento apenas que às vezes algumas paixões tirem a isenção de algumas críticas e de algumas acusações. Eu fui repórter de uma das áreas que mais enriquecem, que foi a área policial. Se você me perguntar qual editoria eu tenho orgulho, eu diria a policial. Porque você conhece a tragédia, desgraça, o crime do rico, do pobre e eu nunca chamei ninguém de condenado, assassino, ladrão sem que ele fosse sentenciado. Antes, todo mundo é acusado, suspeito.

Nasemana - Como você encara a chegada da Copa do Mundo na cidade e a união com a prefeitura?
RL - Como eu tenho uma formação democrática, dentro de casa acho que todo debate é importante. Mas há um fato concreto nisso aí. Não estou dizendo que quem defende a manutenção do Machadão, a do Machadinho, do Centro Administrativo está errado ou certo. Eu quero dizer: se Natal quer a Copa, ela tem que ser desse jeito. Nós vamos ter a Copa ou não? Ela só sai se for assim. Com pequenas adequações do projeto. A equipe da FIFA veio aqui, olhou, observou, fez estudos e entendeu que aqui nessa área onde estamos conversando é que deve ser feito o complexo. Ainda não se deu a dimensão da importância de uma Copa do Mundo para Natal. Você tire pela reação das cidades que perderam. Goiânia, Florianópolis, Belém, nem se fala. Cuiabá e Campo Grande travaram uma briga irada. Não vejo queda de braço entre governo e município. A governadora fez a parte dela no momento em que acreditou e bancou o projeto. Mas 2014, ela não será mais governadora. Natal vai ser outra cidade mais moderna. Quem imagina que em 1950, 60, que nós teríamos a área em torno do Machadão como ele está hoje se não existia nem Machadão? O Castelão era no meio do mato. E se Natal não tivesse ficado fora das 12 escolhidas? O que estariam discutindo hoje? Que a governadora não teve força, foi mais uma perda. O estado investiu 3 milhões pra nada... Natal venceu a disputa. Eu duvido que se fosse em Mossoró, todos não estariam unidos, como fizeram com Lampião. Eu duvido que alguém questionasse a copa em Mossoró.



Nasemana - Você é abecedista, frequenta jogos, acompanha os momentos políticos do clube e passou em 2009 dentro de um processo de eleição em dezembro. O presidente atual pode ser candidato à reeleição? Como você analisa o momento do clube, o momento político? Rubinho pode ser presidente do ABC?

RL - Não passou pela minha cabeça de maneira nenhuma essa possibilidade. Fora de cogitação pelo menos agora. Pode ser que quando estiver mais velho, mais maduro, sim. Ser presidente do ABC só mesmo a governadora, prefeita e arcebispo. Não é assim. você administrar 70 % da massa torcedora de uma cidade é muito. Eu tinha uma visão antes de me tornar dirigente. Depois que eu fui pra dentro do futsal comecei a mudar um pouco minhas concepções. Porque você não queira saber como é trabalhar com jogador, cobrança de torcedores todos os dias e a minha escala de paciência é 1 em relação à de Judas, que é 100. Eu votei em Judas duas vezes. Ele está no ABC desde 1998. Uma das razões pela qual eu não penso em sucedê-lo é a ingratidão. Porque, por exemplo. A discussão em torno da sucessão de Judas só acontece quando o ABC está perdendo ou começa mal o campeonato. Mas eu acompanho. Judas foi campeão em 1998, 99, 2000, depois em 2005, 2007. O cara construiu um estádio. Durante a execução das obras da Copa, o Frasqueirão será a praça de esporte principal. Eu discordo de algumas formas de Judas gerir o futebol. Eu sou contra empresário dentro de clube, palpiteiro zero. Se não tem solução, não venha com sugestão. Ele suporta isso e aguenta. Talvez por isso que ele passe por essas situações. Eu conversei muito essa semana com Zé Rocha, presidente do América e ele me falou que é muito difícil ser dirigente.Todo mundo tem que se juntar para evitar que ABC caia para a série C, onde passou sete anos. Se cair agora, passa mais dez ou 15. Esse negócio de dizer que Judas é ditador é a maior falácia do mundo. Eu defendo que se aparecer alguém para substituir Judas, que seja com disposição e dinheiro. Eu mesmo lanço a candidatura dele de novo. Eu tenho a gratidão de dizer que nesse momentos temos que defender Judas.

Nasemana- Quais são suas considerações quando dizem que a eleição ao Senado será uma da mais disputadas? Como você vê o cenário para 2010?
RL- Eu tenho aprendido ao longo da minha vida como repórter e assessor que eleição nunca se decide por antecipação. A verdade é que o cenário de um ano para o outro muda muito. A verdade de 97 não foi a de 98; A de 2001 foi muito diferente da de 2002 e a de 2003 da de 2004. Nada pré-definido dá resultado no Rio Grande do Norte. Em 2007 foi totalmente o contrário da de 2008. Acho que falta muito tempo e muito chão. Acho que as coisas serão decididas no começo do próximo ano. Mas acho que será uma briga duríssima para governador e no Senado. A governadora não se lançou candidata ao Senado ainda. Tudo no RN é acirrado e na luta. Acho que não será diferente do ano que vem. Acho que tudo o que for dito será prematuro.

Nasemana - Passando a etapa de secretário de Comunicação, qual será qual será seu caminho? Dos seus projetos, pensa em lançar um novo livro?
NS - Livro, não penso. Até porque os livros saíram sem que eu traçasse metas. E às vezes eu me faço esse questionamento, do que farei quando sair daqui. Eu sei que vou precisar trabalhar. Não tive pai rico pra me deixar herança, não vou sair do governo milionário, mas durmo em paz todos os dias. Não penso em voltar a trabalhar na redação, mas como assessor. Acho que os jornalistas diários amadurecem quando passam por uma assessoria de governo. Acho que se deve passar por tudo e fazer uma média ponderada do que é a profissão.



Nasemana - O que acha da decisão do STF de ter desregulamentado a profissão de jornalista?

RL -Eu não sou jornalista diplomado, mas nem por isso acho que a profissão deve ser vulgarizada. Deve ser conduzida por uma pessoa com o mí-nimo de competência técnica, com conhecimento das formas que o jornalismo exige, que está cada vez mais modernizado. O que deve haver são meios para combater a picaretagem. No meu cargo, eu recebo inúmeros pedidos de blogs, revistas, jornalecos que são usados para obtenção de dinheiro público. Temos que separar o joio do trigo. É muito fácil utilizar alguns meios para atacar a honra das pessoas. Não defendo o fim do diploma nas universidades. Tivemos grandes jornalistas com e sem. A competência é que será o diferencial.
 
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