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Fernando Bezerra: "Não volto mais pra política"

Em entrevista ao Nasemana, o ex-senador fala que vai se dedicar totalmente a sua construtora, Ecocil, e que na política ruim é perder de pouco.

Por Alan Oliveira, Delma Lopes e Luana Ferreira
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Vlademir Alexandre
"Não tenho o menor arrependimento do tempo que passei como político, mas não volto".

Ele anuncia que não volta mais para a política. Diz que ruim é perder por pouco. Mas as últimas eleições fazem parte do passado para o empresário Fernando Bezerra, da Ecocil, que chega aos 60 anos no ramo de construção civil e cheia de mudanças. O ex-senador volta ao comando da empresa após deixar os filhos seguirem os passos do crescimento do que vai ser agora uma incorporadora, acompanhando as tendências do mercado. Se ele teme a chegada de grandes incorporadoras, Fernando deixa claro que a empresa está pronta para consolidar sua marca, agora também atuando em obras públicas. Em entrevista ao Nasemana, Bezerra analisa o atual momento da política brasileira e diz: os nomes comandam a política, sendo mais fortes que os partidos. 


Nasemana - Quais são as mudanças que a Ecocil está preparando para este novo momento que vive a empresa, após 60 anos de sua fundação? 

Fernando Bezerra - Nós estamos mudando por uma questão de estratégia empresarial. A Ecocil tem tradição em construção e, nos últimos anos, na área imobiliária. Por limitações que eu me impus, pelo fato de que eu era Senador, nós ficamos fora das obras públicas no Rio Grande do Norte. A legislação não me impedia disso, mas eticamente eu não me sentia confortável. Depois de 12 anos fora, eu voltei e tive que me adaptar e a empresa teve que se adaptar a mim. E é um novo momento que vive a economia brasileira. Então nós separamos a área de incorporação imobiliária e a área de construção. Então nós criamos a empresa Ecocil Incorporações SA. Essa empresa foi registrada em 18 de agosto. Passamos todos os imóveis (menos os pessoais) da Ecocil para esta empresa. Na Ecocil, nós resolvemos fazer uma reestruturação administrativa e estabelecemos três nichos de mercado com três diretorias. Um é a área de incorporações. Vamos ter preferencialmente as obras da Ecocil Incorporações, mas também de outras incorporadoras - sejam elas grandes ou pequenas. Por exemplo, Marcelo Alecrim criou uma incorporadora, e está fazendo um grande empreendimento em Tibau do Sul. A construtora desse empreendimento é a Ecocil. É uma obra de quase 50 milhões de reais. Nós estamos construindo há mais de um ano para uma incorporadora italiana duas torres próximo ao estádio do ABC. Ali é um contrato de construção. Aquilo também é uma obra de vulto. Outro nicho de mercado são os grandes empreendimentos turísticos de terceiros que estão sendo planejados para serem construídos aqui no Rio Grande do Norte. Exemplo: Sanchez. Nós vamos brigar pra ser um dos construtores. E nós temos hoje dois contratos de bastante expressão e um para ser assinado. Neste nicho, nós fizemos um acordo operacional com a Método Engenharia, de São Paulo, uma empresa tradicional daquele estado e a detentora da melhor tecnologia em engenharia de construções no Brasil. Eles têm um modelo organizacional por unidade de negócios. A unidade de negócio que estamos operando é a de hotéis e hospitais. O último nicho de mercado, que estávamos fora, é o de obras públicas. Ainda existe a atividade da Ecocil como empresa. Nós estamos criando uma empresa de aluguel de equipamentos de construção. Não tem um nome ainda, mas essa é a minha pretensão.

Nasemana - Ao mesmo tempo que a Ecocil está com novas propostas para o mercado do estado, há o problema da instabilidade jurídica. Os empresários do setor reclamam que a prefeitura libera e depois barra as licenças para construção?

FB - Eu acho que essa é uma grande dificuldade que enfrenta quem quer investir aqui no RN. O que o investidor quer é segurança jurídica, é que as leis se cumpram nos seus prazos e no rigor que foi feita. Não há interesse de nenhum empresário de violar uma lei. O que o empresário quer é uma segurança jurídica. O que é que está acontecendo aqui em Natal: você tem um Plano Diretor que está sendo questionado. Existem empresários que submeteram obras de construção em Ponta Negra. A prefeitura aprovou o projeto dentro da lei, e depois embargou depois de iniciada. A lei muda, mas você não pode violá-la. Ela é um direito para todos os cidadãos, mas é muito maior o dever do poder público de cumprir. Todos nós devemos ter uma enorme preocupação com a questão ambiental, mas não podemos cometer excessos. O ser humano vai ter que se adaptar para viver aqui. Qual é a vocação inequívoca do RN? É o turismo. Dá pra fazer turismo preservando o meio ambiente? Claro que dá. Agora não pode é ter a regra e depois dizer: "não aqui, não". Adianta a governadora, o prefeito, os secretários irem à Europa atrás de investimento e, quando chega o investimento, não há nada aprovado. 

 
"Hoje você pode criar uma estação de tratamento de esgoto privada, preservar o meio ambiente. Mesmo assim, dizem: não, não pode".

Nasemana - E na situação específica de Ponta Negra? 

FB - Ponta Negra tem a questão do saneamento. Mas muitos empresários resolveram eles mesmos fazerem o saneamento. Hoje você pode criar uma Estação de Tratamento de Esgoto privada, preservar o meio ambiente e, mesmo assim, dizem: "não, não pode".

Nasemana - A Ecocil teme a chegada das incorporadoras estrangeiras? 

FB - Não. Por dez anos seguidos ganhamos o prêmio Top of Mind, então somos uma marca muito forte. A gente tem pesquisas com quem comprou nossos imóveis além do SAC, que implantamos de forma pioneira. Uma imagem não se cria gratuitamente, e sim pelo que você fez pela sociedade. Então, mesmo respeitando as grandes empresas que existem no mercado, nós não temos nada a temer, porque sabemos o que estamos fazendo. Outra razão: o mercado imobiliário nem começou o boom no Brasil. Agora, como todo recomeço, há sempre excessos. Quando o mercado abriu, houve uma enxurrada de investimentos e depois aconteceu um "freio de arrumação", como dizíamos antigamente, o que é normal. Os bancos, por exemplo, vão emprestar agora com mais cuidado. Haverá um processo seletivo das empresas, dos clientes e dos bancos. Nós somos bons competidores, leais na competição, sabemos o que estamos fazendo, somos uma marca forte.

Nasemana - Como o senhor pode explicar que Natal tenha o m² mais barato e ao mesmo tempo os imóveis mais caros do Brasil? 

FB - O "mais barato" eu vou concordar, mais "o mais caro" eu vou discordar. Existem os que são caros e os que são do preço que o mercado absorve. É muito relativo este preço do mercado. Depende da estratégia de cada empresa. A Ecocil tem uma carteira a mais diversa possível: a gente atende desde a classe C até lá em cima, passando por condomínios horizontais. A classe C hoje é a grande noiva do mercado. O contingente de pobres que emergiu é um negócio fantástico e há um déficit habitacional.

Nasemana - O grupo pode vender as ações da Cabo Telecom? 

FB - Nós somos um grupo minoritário. A Cabo é controlada por um grupo argentino que detém 65% das ações. Há uma cláusula no acordo de acionista de que a venda das ações só se dará com o consentimento de 100% dos sócios, então nossa palavra pesará. Há sondagens com relação a isso, mas não negociação em curso. As telefônicas, que são os grandes gigantes desse mercado, estão entrando na área de imagem também. Mas as TVs por assinatura estão entrando em telefonia. Nós vamos entrar em telefonia já.

Nasemana - O senhor volta para a política? 

FB - Não, não volto. Não tenho o menor arrependimento do período que passei como político. Foram 12 anos de atividade muito intensa: fui presidente de Comissão de Assuntos Econômicos no Senado, fui líder de dois governos, fui Ministro de Estado. Mas agora, acabou. Não quero mais nenhuma atividade política. Eu entrei na política saindo da empresa e voltei para empresa. Considero-me um empresário. Dei minha contribuição ao RN. Estou feliz por ter voltado. Perder eleição é muito ruim. Foi amargo para mim, foi duro. Perder por pouco é pior do que perder por muito. Então 2007 foi duro.Agora eu voltei e não vim pra tomar o lugar dos meus filhos que ficaram tomando conta da empresa, vim pra criar um espaço pra mim. Isso é um processo de adaptação: estranha quem está e estranha quem chega. É como o começo de um casamento. Sempre fui um empresário que ousei, fui pioneiro em muita coisa, mas tem ainda muita coisa pra criar. 

 
"Os partidos não valem absolutamente nada. Lula, por exemplo, está muito mais forte que o PT".

Nasemana - O Norte Shopping foi um bom negócio? 

FB - Existe uma regrinha: pra um shopping amadurecer, precisa passar por dois natais. Nós não tivemos nenhum ainda porque o primeiro não contou, já que foi inaugurado dia 6 de dezembro com 45 lojas. Nós vamos esse ano, em dezembro, deixar os seis cinemas funcionando. No Natal de 2009, nós estaremos maduros. A zona norte está indo muito bem. Nós não fazemos mais nada hoje sem pesquisas, e existem empresas especializadas em pesquisa de mercado de varejo. Nós trouxemos um pesquisador de São Paulo e ele disse: "olha, pode ficar tranqüilo".

Nasemana - Como o senhor avalia o atual momento da política no Rio Grande do Norte? 

FB - Eu vejo ainda com muita preocupação o cenário político brasileiro. Ao redemocratizarmos o país, nós criamos uma estrutura multipartidária que não aconteceu. Os partidos não valem absolutamente nada. Lula, por exemplo, está muito mais forte que o PT. Aqui se volta em pessoas, e isso não é possível continuar. Não há um exemplo de consolidação democrática no mundo sem que os partidos tenham força. A política se faz em torno de um partido. Aqui no RN vamos ter uma eleição municipal que é o "samba do crioulo doido". Wilma está aqui com Garibaldi em Natal e depois vai pro interior e sobe no palanque com Agripino. Garibaldi, Robinson Faria do mesmo jeito. Isso é um retrato de que não existe partido no Brasil, e sim os interesses pessoais. Eu me preocupo em relação a Natal com uma coisa: eu queria que o futuro prefeito de Natal cumpra a lei, o que é meio idiota, porque isso é uma obrigação dele. Sinto também uma degradação na representação política do Brasil. No Senado, na Câmara Municipal de Natal. Os vereadores eram os nomes mais expressivos da nossa sociedade, que estavam na política como um dever, e não como uma profissão. Sinto também uma omissão da sociedade que critica duramente, mas não faz nada. Não tenho nada contra Miguel Mossoró, mas quem votar nele que vote por suas promessas, não por protesto porque é um desserviço para a sociedade. A gente não pode brincar com uma coisa dessas. Um erro de quatro anos a gente só sabe depois. A sociedade são as instituições, e elas estão degradadas moralmente, desrespeitadas, e a culpa é nossa. É fácil dizer agora porque sou simplesmente um cidadão.


* Entrevista publicada no Jornal Nasemana (edição 24 - 6 a 12 de setembro de 2008)
 
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