
Magnólia Figueiredo, 44 anos, uma das maiores atletas do Brasil dos últimos 20 anos, com participação em três olimpíadas, quase quatro, como costuma dizer, afirma que está preparada para a missão de administrar o esporte. É como se já esperasse pela indicação. Formada em educação física e com pós-graduação em gestão pública, a nova secretária de esporte comenta as ações que pretende desenvolver à frente da pasta e os projetos que visa implementar. E como não poderia deixar de ser, em plena disputa dos Jogos de Pequim, nossa campeoníssima representante do atletismo por duas décadas sente na pele emoções que já foram suas e comenta as chances de medalha do Brasil nos jogos olímpicos.
Nasemana - Como está sendo a organização da Secretaria Estadual de Esporte após a sua posse?
Magnólia Figueiredo - Está sendo tranqüila. As pessoas que estavam aqui na Secretaria eram da confiança de Miguel Weber e eu também depositei a confiança nelas, porque são pessoas capazes, que dariam seguimento à gestão dele. Tentamos mexer o mínimo possível. O chefe de gabinete, Carlos Rosado, está com problemas pessoais porque tem alguns investimentos fora do Estado e sente dificuldade de conciliar Natal , Mossoró e João pessoa. Até que tudo fosse normalizado, eu pedi pra ele aguardar um pouco pois ele ia passar mais tempo ausente da Secretaria.
NS - Qual será o foco de atuação da sua administração à frente da Secretaria?
MF- Nós vamos atuar nas três dimensões do esporte, ou seja, a participativa, de rendimento e educativa. No educacional nós temos essa parte bem ligada, hoje, aqui no estado, à Secretaria de Educação, porque toda nossa base é escolar. Sabemos que existe o trabalho das Federações, mas não temos a estrutura de clubes, e sim de escolas. Precisamos desenvolver e articular um trabalho conjunto muito forte com as federações porque todas trabalham o desenvolvimento e fomento das atividades esportivas.
NS - Quais ações que serão destinadas para o desporto educacional?
MF - No desporto educacional tentaremos entrar no bem social. Nós temos alguns núcleos já identificados, e temos necessidades de trabalhar as desigualdades sociais e promover a inclusão. O esporte é um instrumento que pode trabalhar a educação com as pessoas e resgatar alguns valores que estão invertidos. Além disso, precisamos trabalhar para capacitar e qualificar os técnicos, aprofundar os conhecimentos deles para desenvolver uma pedagogia e uma metodologia de treinos para ajudar o atleta e não causar uma ação contrária.
NS- Foi feita uma radiografia pra saber quais as deficiências no esporte do RN e do que ele mais carece?
MF - Como eu sou ligada à Federação de Atletismo, as dificuldades não são diferentes das outras. O atletismo é uma atividade marginalizada porque é praticada por pessoas carentes. Vejo que precisamos de um apoio local para que a gente possa começar a promover nossos eventos. Se ficarmos apenas com os eventos escolares corremos o risco de não ter um trabalho mais consistente. Gostaria que houvesse um trabalho de seleção permanente, assim como na época que eu comecei. A equipe tinha um compromisso de representar o Estado e hoje não tem mais isso. Queremos resgatar as seleções e técnicos permanentes pra elas poderem ir além de um Campeonato Brasileiro, lógico dentro das nossas possibilidades. Nós vamos tentar aumentar nossos recursos para atender os esportes coletivos, onde o custo para deslocar 12, 15 atletas é maior. Isso será necessário para que gente possa voltar a competir, mesmo que comecemos na segunda divisão. Mesmo assim é difícil chegar à segunda divisão se não se consegue nem sair do Estado. No desporto de alto rendimento vamos trabalhar de forma articulada com as Federações.
NS - Você acredita que o Governo Federal, por intermédio dos projetos do Ministério dos Esportes, dá o devido apoio ao esporte brasileiro?
MF - Na medida do possível acho que cresceu muito nesta gestão. O que acontece é que às vezes não se conhece todo o programa do Governo para o esporte. Mas nós temos sentido um avanço muito grande de apoio. Na minha época, eu tinha dificuldades em tentar o índice para as Olimpíadas. Hoje já existe o incentivo. Quando tem o índice e o atleta é pré-convocado, a Confederação Brasileira já tem toda a assistência, eles dão as condições para o atleta. Hoje é mais fácil conseguir passar de 15 dias a um mês em outro País. O Governo está com uma estrutura muito boa e os resultados aparecem.
NS - Quais são os projetos desenvolvidos pelo Ministério que uma Secretaria de Estado como a nossa poderia pegar carona?
MF - O projeto Vida Saudável, programa de qualidade de vida que vamos tentar implantar aqui. Hoje, as pessoas acham que o Programa é voltado para a terceira idade e, na verdade, é para os adultos. Nós não temos uma cultura da prática de atividades físicas e precisamos ter esse cuidado. Com o instrumento educacional de promoção de saúde, essas informações precisam chegar e vamos tentar trazer recurso do Governo Federal logo após as eleições.
NS - Há alguma reunião programada com o ministro dos esportes Orlando Silva?
MF- Não. Durante as Olimpíadas todo o ministério estará em Pequim. As atenções estão voltadas para as competições neste momento. Eles estão acompanhando de perto porque fizeram um investimento e precisam acompanhar. Ao mesmo tempo dá para fazermos um planejamento enquanto nossos projetos estão sendo elaborados. Neste período, nós vamos trabalhar em conjunto com as Federações, ligas, associações, mantendo sempre o respeito à Secretaria Municipal de Esporte e Lazer. Como alguns projetos estão em um âmbito municipal, não podemos assumir as competências daquela secretaria. Mesmo quando nossos projetos estiverem prontos, conversaremos com eles porque teremos algumas atuações também em Natal. Não queremos causar nenhum desconforto.
NS - O trabalho da Secretaria será elaborado em conjunto com outras secretarias de estado ou mesmo a secretaria de município?
MF - Sim, o trabalho não pode ser isolado. Faremos uma ação conjunta com as secretarias de Ação Social, Saúde e Segurança. O próprio trabalho de minimizar os desvios sociais em ambientes inseguros será desenvolvido com a Secretaria de Segurança Pública. Algumas ações que iremos realizar serão desencadeadas em lugares onde há um nível de criminalidade alta. As atividades vão ser contínuas e, de certa forma, vamos precisar de um suporte. Desenvolveremos um trabalho multidisciplinar com psicólogos e assistentes sociais também com os pais dos atletas em uma ação de acompanhamento. As ações serão sócio-educativas, visando esporte e cidadania.
NS - Existe uma chance dos clubes de futebol tradicionais, que antigamente tinham seus núcleos amadores, de voltarem a ter os seus times de basquete, futsal, voleibol e natação?
MF - Temos alguns pequenos problemas com os clubes com a questão da filiação. Hoje, muitos deles não declaram que os atletas lhe pertencem. Isso está sendo um problema porque os clubes estão sentindo dificuldade em assumir a responsabilidade sobre um desportista. Eles têmem que essa responsabilidade assumida possa trazer problemas futuros se caso ocorrerem problemas de afastamento por contusão, invalidez e outras coisas.
NS - O RN é um dos cotados à cidade-sede da Copa do Mundo de 2014. A partir de agora, que tipo de ação a secretária pretende buscar junto à Secretaria de Esporte do Governo do Estado para que o mundial seja realizado aqui?
MF - Primeiramente temos que fazer um lobby muito forte para termos a Copa do Mundo, porque isso é uma decisão muito política também. É necessário constituir uma comissão que tenha pessoas capacitadas para trabalhar em prol desse objetivo. Politicamente, as outras cidades são muito fortes, apresentam uma estrutura melhor. A decisão deve ter a ver também com o projeto porque eles são mais acostumados a fazer eventos de grande porte. Mas temos que analisar que os estados não estão totalmente prontos. O caderno de encargos será colocado para adequação e, a partir daí, definir quem vai ser sede. Eu conversei com algumas pessoas do governo e é necessário você ter uma empresa que já tenha um know how na promoção de grandes eventos. Talvez por sermos muito tímidos nesse quesito, isso pese contra nós. Em alguns estados, a secretaria é muito mais atuante, agressiva, ousada. Mas não acho impossível a nossa escolha. Algumas outras coisas pesam e precisam ser analisadas. Esses grandes eventos são grandes negócios.
NS - No Brasil já são conhecidas algumas personalidades que se destacam no esporte. Nas Olimpíadas de Pequim cabe alguma surpresa?
MF - Não existe pulo do gato. Todo pulo do gato tem um gatinho plantado anteriormente. Não existe a possibilidade de surgir uma grande surpresa pela globalização do esporte.
NS - No atletismo temos uma chance real de ganhar uma medalha com o potiguar Vicente Lenilson?
MF - Nas provas individuais existem as previsões. Se procurarmos no site da Federação Internacional e olhar o ranking internacional, até o momento, não existe nenhuma possibilidade de ele estar entre os favoritos à medalha. Muitos atletas do ranking estão na frente dele. No revezamento existe um conjunto de fatores que podem influenciar. A passagem do bastão, saída do atleta, entre outros. Há algum tempo o Brasil vem se classificando para a final e uma vez nesta fase da competição, tudo pode acontecer.
NS -Então, esperança de medalhas temos só duas chances reais: com Jadel Gregório e Maurren Maggi?
MF - Fabiana Murer também. Ela sempre está bem posicionada em competições de grande porte.
NS - O caso da jogadora de vôlei de praia Juliana, que desistiu a dois dias das olimpíadas, é semelhante ao acontecimento que lhe impediu de participar da sua última olimpíada?
MF - Eu acho que o caso dela eu posso comparar com o que aconteceu comigo em 1992. Acontece que eu me preparei muito para essas situações também. Eu não sei se ela estava preparada. Isso pode acontecer com um atleta que faz do seu corpo uma máquina. Na época, eu fui consciente que era uma opção minha e estava perdendo para ganhar mais tarde. Eu sabia que corria esse risco. Porém, a situação é diferente porque era a primeira olimpíada dela.
NS - O Brasil tem condições de superar os números das últimas olimpíadas de Atenas, em 2004? Podemos ter mais atletas perto do pódio?
MF - Acredito que sim. Nesse governo houve muito investimento e é difícil você pensar em investimento sem retorno. Houve uma estrutura muito bem montada durante os quatro anos que separaram as competições para que possíveis atletas fossem representar o Brasil nas olimpíadas. Há uma probabilidade maior de sucesso nesses jogos porque o trabalho não começou no ano passado. Nós vamos crescer tecnicamente, até independente do número de medalhas que vamos conquistar.
NS - Quem tem mais chances de trazer o ouro para o Brasil: O futebol masculino ou o feminino?
MF - Acho que a possibilidade está para os dois. O futebol feminino cresceu muito e tem feito apresentações belíssimas. Mas as atletas ainda sentem tratamento desigual. Acredito que elas querem se superar pra ver se as coisas se igualam, inclusive na questão do respeito. Mas temos que admitir que o futebol masculino tem muito mais tempo e tradição. Isso é uma relação histórica. É necessário tempo para conquistar o espaço.