Entrevistas
Início / Notícias / Entrevistas

Micarla diz que só tem voto certo para José Agripino

Prefeita de Natal concede entrevista e diz que compromisso para 2010 só com senador do DEM.

Por Diógenes Dantas e Marcos alexandre
Tamanho do texto: A
Gabriela Duarte
No quinto mês da administração, a prefeita Micarla de Sousa ainda cuida de desatar alguns nós. Esta semana, ela resolveu um, que foi encontrar um nome para a Saúde, um dos gargalos da gestão. Nesta entrevista, ela diz que não está tendo tempo de fazer política, mas revela que já tem uma decisão para 2010: um dos seus votos para o senado é para José Agripino.

Nasemana - É verdade que a secretária Lecy Gadelha estava se recusando a voltar ao trabalho em virtude do seu desejo de não continuar na Secretaria de Saúde como interina?
Micarla de Sousa -
Toda a cidade do Natal sabe dos problemas que estamos enfrentando com a Saúde. Eu fiz o convite para a Lecy, que estava interina enquanto nós buscávamos um secretário de Saúde, o que não é fácil. Eu digo um bom secretário porque para colocar um tapa- buraco não serve. Para ser um bom secretário de Saúde não é necessário apenas ter conhecimento da saúde pública. Você tem que fazer gerir os recursos públicos, mais do que talvez qualquer outro secretário porque este ano, por exemplo, o nosso orçamento para esta área deve ficar acima dos 25 %. Então vai ser o maior investimento que a cidade vai fazer...

Nasemana - Faltou esse nome quando a senhora apresentou os primeiros secretários?
MS -
Não, o nosso ex-secretário Dr. Levi Jales exerceu com muita propriedade a sua função. O problema é que os salários pagos a um secretário na prefeitura são infinitamente menores do que se ganha exercendo uma função de destaque no setor privado, ainda mais ele que é um médico muito procurado e tem uma média muito alta de clientes. Ele já estava sofrendo alguns problemas financeiros.

Nasemana - Mas quando ele aceitou o convite já sabia que haveria perda salarial.
MS -
Mas ele imaginava que poderia conciliar, sair da secretaria no final do dia, a partir das 18h, e fazer consultório até as 22h. Mas quem sai à meia noite da prefeitura como a gente faz, é muito difícil estar liberado às seis horas da tarde. Lecy tem sido de uma correção incrível. Ela, mesmo sabendo que é interina, tem exercido o papel dela. Essa questão de que ela se recusava a voltar ao trabalho não existe. Agora é claro que ela pegou um problema muito sério como uma pessoa que estava sempre acostumada a exercer funções técnicas, e a partir do momento que exerce uma função que é de tamanha cobrança, lógico, que a pessoa sente. Mas isso não quer dizer que ela esteja abandonando o barco, muito pelo contrário.

Nasemana - A senhora elegeu a saúde como sua prioridade, mas a gente vê que desde a gestão de Wilma de Faria, passando por Carlos Eduardo, esta área sempre foi um grande problema. A senhora não assumiu um risco grande sabendo que depende de estado, de verbas federais para resolver essa questão?
MS -
Eu sei, mas para mim tem que ser quente ou frio, pois morno não me serve. Eu sei do risco que eu corri desde o primeiro momento ao dizer que iria mudar a história da saúde que se repete há 20 anos e todo mundo fica paralisado diante dos problemas. É uma situação que às vezes eu fico impressionada, muitas vezes eu determino, mas a máquina é tão amarrada, tão viciada em certas atitudes e ações que a coisa é realmente um parto a fórceps. Mas eu posso afirmar para a população de Natal, no popular, que esse menino vai nascer. O nosso maior desafio é acabar com esse círculo vicioso e virtuoso da saúde. É difícil, é duro, é toda uma mudança cultural, mas eu estou completamente preparada e firme nesse meu propósito. Talvez pelo meu jeito de ser, eu considerasse que a gente conseguisse superar esses desafios com um tempo mais curto, mas não tem problema. Não é no tempo que eu imaginava, mas a população vai ver uma saúde funcionando e digna da população natalense.

Nasemana - Diante dessas dificuldades na parte estrutural e também política, que é definida pela questão da escolha do secretário, o que a prefeitura está fazendo para sanar problemas como aquele que deflagrou a greve dos médicos?
MS - Eu me reuni com o nosso procurador (Geral do Município), Bruno Macedo, para definirmos exatamente como devemos agir e tomarmos algumas medidas para fazer a rede funcionar. Primeiro colocar o médico lá no posto atendendo à população e, para isso, estamos articulando a abertura de concurso público para especialidades difíceis de serem encontradas e que hoje contratamos via cooperativa, como os anestesiologistas, cirurgiões, pediatras e ginecologistas. Depois é abastecer a rede.

Nasemana - Qual é o quadro da secretaria?
MS -
Hoje nós temos uma carência de cerca 200 médicos. Abrimos um processo seletivo para contratação imediata de 120 profissionais, compareceram 88 e desses 30 já desistiram.

Nasemana - Por quê?
MS -
O salário não é nada atrativo e eu sei disso, mas a prefeitura tem algumas responsabilidades como, por exemplo, o limite prudencial. Temos que fazer com que a contratação aconteça dentro desses limites legais. São alguns problemas que a gente está enfrentando como esse escândalo nacional dos medicamentos e é engraçada a forma como quase sem querer foi descoberto esse problema. Eu tenho o costume de visitar os órgãos da minha gestão sem avisar porque quando a gente avisa, parece que está tudo muito arrumadinho. Eu gosto de ir até os lugares sem muita comunicação.

Nasemana - Só para dar o flagrante...

MS - Não é isso. Apenas quero chegar e encontrar o lugar como a população encontra. Então eu cheguei ao posto do bairro Mãe Luíza e lá encontrei o almoxarifado lotado de caixas. Fiquei curiosa e a diretora me falou que se tratava de água sanitária. A questão é que a administração do posto havia solicitado 30 litros e recebeu 30 caixas. Eu achei aquilo estranho e fui no outro dia ao posto de saúde do Vale Dourado. E lá, também estavam as caixas. Resolvi ir ao nosso almoxarifado para saber o que estava acontecendo e detectei que não se tratava, apenas, de água sanitária que eles tinham mandado em excesso. Eles compraram uma quantia inimaginável de 282 mil reais em remédio pra rato. O pior é que esse remédio não podia ficar naquele local. Eles deixavam lá e os funcionários começavam a adoecer. Então o que foi que eles fizeram? Alugaram um depósito só para colocar o Ratol. Você imagine o gasto só de remédio pra rato, quando uma dedetização bem feita e refeita a cada seis meses daria para resolver.

Nasemana - Então, na avaliação da senhora, houve compras indevidas no final da gestão do prefeito Carlos Eduardo?
MS -
Completamente indevidas e, digo isso com base em relatórios internos que estão sendo confeccionados pela secretaria junto com a Controladoria e serão entregues na próxima semana. Eu tive a oportunidade de estar com a presidente da comissão de sindicância interna, Ana Tereza Motta, que me passou dados assustadores diante dos depoimentos que foram tomados dos ex-funcionários da secretaria. Na segunda-feira que vem ela vai apresentar formalmente em uma audiência pública na Câmara Municipal. No próprio relatório temos provas de que alguns medicamentos foram comprados com prazo de três meses. Ora, até ele ser entregue à população seria estragado.

Nasemana - Era mesmo necessário contratar essa empresa de Pernambuco para cuidar da gestão dos medcamentos?
MS -
Nos primeiros 30 dias da minha transição eu visitei o estado de São Paulo, de Minas, do Paraná, fui até o Rio de Janeiro para conhecer modelos de gestão e vi essa organização na armazenagem e distribuição de medicamentos que essa empresa, que nós contratamos, fará e vai reduzir em até 20% os nossos custos com medicamentos. Ano passado, nós compramos 7 milhões de reais em medicamentos. Se já existisse essa organização a economia teria sido de 1, 5 milhão de reais apenas otimizando, mas da forma como está nós acreditamos que cheguemos até 50%. Do jeito que estava, sem controle de entrada e saída, sem a população poder receber o seu medicamento de forma correta, não dava. Agora nós vamos fazer isso de forma correta. Estamos recebendo 200 computadores da Receita Federal, que está nos doando equipamentos que são fruto de apreensões feitas no Rio de Janeiro, e que serão colocados nos postos de saúde para interligar na rede. Com isso, nós teremos como saber lá no almoxarifado que o posto de saúde do Nazaré ou do Pajuçara, por exemplo, não têm medicamento. Quer dizer, não vai precisar o diretor ligar porque vai estar tudo interligado.

Nasemana - Quanto ao trânsito, entre as medidas adotadas está o Programa Via Livre. Quais os resultados apresentados até agora e qual o próximo passo?
MS -
Eu tenho tido muitas alegrias com relação à resolutividade que tem sido dada pela Secretaria de Transporte. Eu acabei de falar em saúde, se a gente tem um orçamento que pode chegar a 25% para a Saúde, e nós temos que colocar constitucionalmente mais 25% para educação, isso quer dizer que 50% do nosso orçamento está em duas pastas, então as outras secretarias têm que trabalhar com muita criatividade porque é muito fácil você fazer as coisas quando tem dinheiro. E quando não tem? Projetos como o Via Livre resultam em soluções econômicas. Eu vi os relatórios que o secretário kelps Lima me trouxe. De acordo com eles, seria necessário 1 milhão de reais para construir mais uma pista de rolamento na Av. Romualdo Galvão. Ora, investir 1 milhão de reais em uma pista, que não resolveria o problema, nós temos que ter duas pistas e já seriam dois milhões de reais para uma só avenida. Com o Via Livre, nós gastamos 50 mil reais numa via. Os números do projeto são muito claros, mostram que a população está reconhecendo que nessas vias, como a Romualdo, a Jaguarari e a São José, o trânsito está fluindo. Nas outras, como a Afonso Pena, estamos conversando com os comerciantes. Agregado a isso, tivemos o sucesso do Passe Livre, que foi um projeto que eu vi em São Paulo. Lá chama o bilhete estendido, você troca de ônibus sem precisar entrar na estação de transferência, aquelas latas de sardinha. De acordo com a secretaria, no primeiro dia, duas mil e 700 pessoas pegaram outro ônibus e não precisavam pagar. A população vai deixar as estações de transferência naturalmente morrer.

Nasemana - Mas esse programa também tem agravado a falta de estacionamentos. O que será feito?

MS - Nós estamos trabalhando pra atrair aqueles empreendedores que possam fazer estacionamentos privados, pois tudo termina sendo pago. Quando você pára o seu carro em qualquer rua, é óbvio que sempre tem um flanelinha. Nosso projeto inclui desde a isenção de tributos para quem vir construir garagem nessas regiões a outros benefícios.

Nasemana - E na á
rea de habitação, o que está previsto?
MS -
Eu estive com a nossa secretária, Diana Motta, no bairro do Planalto, onde estamos construindo 200 unidades habitacionais. Já estive por parte da CNB, que é uma companhia de habitação, e a informação é que nós vamos receber mais 500 casas para nossa cidade, que vão ser entregues à população de risco que vive em comunidades e favelas. Mas o programa Minha Casa, Minha Vida, do Governo Federal, nós resolvemos abrir a inscrição pela Internet. No primeiro dia, nós tivemos 1.200 inscritos. Depois dessa fase faremos a seleção e vamos convocar as pessoas para apresentar os documentos e verificar se podem participar deste projeto.

Nasemana - E em relação à questão da regularização fundiária em Natal, prefeita?
MS - Nós estamos junto a Diana Motta e com a Reforma Administrativa, que saiu graças a Deus, teremos um quadro suficiente de profissionais que vai facilitar a agilizar essa questão da legalização fundiária. Hoje por exemplo, 80% da zona norte de Natal não é legalizada. Em Petrópolis e Tirol, chega a quase 100%. Mas se a gente for contabilizar a região oeste, a gente chega aos mesmos índices da zona norte. A população carente é a que está mais exposta. Estamos programando ações aonde o cidadão não precisará ir à prefeitura.

Nasemana - O Parque da cidade vai ser concluído?
MS -
A determinação é de que o Parque da Cidade aconteça, mas de forma legal e não como foi feito. Agora é engraçado que o parque não tem nem habite-se. A prefeitura era tão rígida, às vezes demorava quatro anos para dar um simples licenciamento, e o parque da cidade foi aberto sem habite-se, sem a liberação do Corpo de Bombeiros, com um elevador que se parasse poderia provocar a morte de todos que lá estavam porque os bombeiros iriam demorar cerca de 3 horas para retirá-las. Além disso, na primeira chuva que deu em janeiro deste ano, o gabinete que eu teria lá rachou. Outro problema é que foi constatado que a prefeitura pagou à pessoa errada pelo terreno onde foi construído o parque e agora terá que pagar novamente às pessoas de direito. Assim serão mais indenizações do que os 20 milhões que já foram pagos.

Nasemana - Esta semana o presidente estadual do PPS, Wober Júnior, transmite uma mensagem, na qual fala que é hora de deixar de troca de intrigas e trabalhar. Como a senhora vê esse momento da sua administração? Tudo é culpa da gestão passada?
MS -
Em primeiro lugar, eu quero deixar claro que desde o primeiro momento, quando eu e Carlos Eduardo assumimos a prefeitura, já estávamos rompidos. Eu usei de toda a minha paciência naquele momento, pensei até em deixar a política porque eu não conheci política daquela forma. Como um vice eleito não pode fazer nada? Então não tinha justificativa eu continuar naquela função. E naquele momento, eu apenas tinha sido usada para uma questão eleitoral, mas não serviria para ser uma vice atuante. Eu acho que tem que se parar com essa hipocrisia, eu estou há três meses na prefeitura e qualquer tipo de análise que eu faça, eu vou me reportar a quem? Ao ano passado, que eu não estava. Hoje eu vou fazer a comparação com o que? Os quatros primeiros meses de Recife, de João pessoa, do Rio de Janeiro? Eu tenho que usar o que estava acontecendo com a minha cidade como eu peguei. Agora o problema é que infelizmente os poderosos, aquelas pessoas que detêm o sobrenome bonito, porque o meu é só Souza, Né? Como muitos Silvas...

Nasemana - Mas a senhora agora é poderosa...
MS -
Não eu tenho apenas o poder de estar com o povo.

Nasemana - Mas não deixa de ser um poder.
MS -
O que acontece é que as pessoas normalmente acham que a gente tem que ficar calada diante dos desmandos que aconteceram porque alguém foi ungido porque é filho de, é sobrinho de, é primo de, porque tem um sobrenome tal. Isso ninguém espere de mim porque o que tiver de mazela a ser mostrada, eu vou mostrar. Agora eu já mostrei bastante, mas e se tiver mais a ser mostrada, como vai ter, e vamos mostrar na semana que vem. Eu não fui eleita para esconder nada, se fossem outros candidatos ou outra candidata eleita, que tivessem o compromisso com quem estava escondendo, tudo bem, mas eu não tenho compromisso nenhum. A população de Natal tem o direito de saber como os recursos estavam sendo administrados e como eu pretendo fazer para recuperar nossa cidade. Não é fácil encontrarmos uma cidade com 217 milhões em débitos a pagar. Nós temos um orçamento de 1 bilhão, mas de arrecadação municipal nós temos 250 milhões. Então o orçamento está todo comprometido para pagar débitos passados que deveriam ter sido honrados, na gestão passada. Assim, esse negócio que falam: Ah, prefeita, a senhora fica se reportando muito ao passado. Ninguém constrói nada sem olhar pra trás para não cometer os mesmos erros.

Nasemana - Os jornais falam de uma nova frente política que se forma no estado e que inclui a senhora, o deputado João Maia, Robinson Faria e Rogério Marinho, todos jovens e com ambições políticas legítimas. O que a senhora tem a dizer sobre isso?
MS -
Uma cidade como Natal, que tem tantos problemas pra resolver, me perdoe, mas você acha que dá tempo agora para estar me envolvendo com política partidária? Não dá, não.

Nasemana - Mas a senhora é presidente de partido, participou de acordos políticos e não tem conversado sobre política?
MS -
Pois você acredita que não? Não houve nenhum tipo de conversa política.

Nasemana - Mas pelo menos três desses candidatos dizem que contam com seu apoio para o Governo do Estado. Qual sua preferência?
MS -
Qualquer um dos três assumiria bem a função.

Nasemana - Mas qual conquistou seu apoio?
MS -
Meu compromisso em relação a 2010 não foi firmado, vai acontecer, mas não é algo que vou fazer agora. Porém o meu compromisso e voto para o Senado é do senador José Agripino.

*Matéria publicada no jornal Nasemana - Edição 58 - de 9 a 15 de maio de 2009
 
Não há tags relacionadas.
Comentários enviados
Seu nome:*
Seu e-mail:
Mensagem:*

Plantão de Notícias Nominuto
TV Nominuto
Augusto Maranhão entrevista o tenente Elisiário
 
Newsletter
Receba nosso informativo em seu e-mail.
 
Mais opções de cadastro