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"Não se faz cultura sem dinheiro", diz José Dias

Por Alex de Souza
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Fotos: Vlademir Alexandre
O produtor musical José Dias alcança neste sábado (3) a marca de mil shows com entrada gratuita no projeto Praia Shopping Musical. Aos 49 anos, pai de cinco filhos, Zé Dias faz questão de lembrar que foi goleiro da Seleção Brasileira de Handebol "duas vezes" e abandonou a carreira de economista para se dedicar à música, mesmo que seja por trás dos palcos. Ele conversou com o Nasemana sobre sua trajetória, chorou ao falar do pai e da mulher, Khrystal, e também comentou os planos para o futuro.

Nasemana - Como é alcançar a marca de mil shows produzidos num mesmo local?
José Dias - Em mais ou menos dois anos e seis meses, geramos 5 mil oportunidades de empregos e sempre tive a independência de fazer meu trabalho. Mas, falando como cidadão, o mais importante foi conseguir transformar o Praia Shopping num lugar diferente.

Até começarmos o projeto, o shopping era conhecido como um local de prostituição e hoje isso mudou. Eu queria muito que o pessoal do Conetur me convidasse para falar sobre a prostituição em Ponta Negra, porque nossos empresários não têm a capacidade de encarar esse problema de frente. Hoje, eu não tenho coragem de levar meus filhos para Ponta Negra. A praia deixou de ser do natalense. E nós devolvemos o Praia Shopping para quem é de Natal.

NS - Há quanto tempo você está nessa de produzir shows?
JD - Eu sou formado como economista, pela UFRN, mas deixei de lado a profissão há 14 anos para me dedicar à carreira de produtor executivo...

NS - Essa experiência começou com o projeto Seis e Meia, certo? Como surgiu a ideia?
JD - Eu trabalhava com Wober Junior, na Câmara Municipal. Quando ele se elegeu para a Assembleia e Garibaldi para o governo, vi que teria a chance de mostrar para as novas gerações algo com a importância que o Projeto Pixinguinha teve para a minha geração. Mas, como eu ia dizer para Wober que não ia com ele para a Assembleia?

A gente passou não sei quantos anos lascados e, na hora que a coisa ia melhorar, eu ia cair fora? Passei 30 dias numa casa de praia ensaiando como ia falar com ele sobre isso, que ainda hoje é meu melhor amigo. Então, deixei de ser assessor parlamentar para ganhar R$ 1.300 por mês na organização do Seis e Meia.

E foi uma experiência fantástica. Só que eu não tive maturidade para tocar o projeto. Fui prepotente, boçal, me achava melhor que todo mundo. Tratei mal os artistas daqui, porque não tinha a visão que tenho hoje de como o trabalho que esse pessoal faz é importante. Depois do Seis e Meia, promovi o Natal em Canto, no América, que também foi muito importante naquele momento.

Em seguida, fui trabalhar com Lane Cardoso - o que foi uma experiência válida, mas a parceria acabou porque ela acabou enveredando para um tipo de música que não me emocionava. Fizemos trabalhos bons: quando nem se falava em resgate do carnaval da cidade, Lane gravou um CD só com música de carnaval.

Muito antes de se voltar a valorizar Elino Julião, gravamos um disco somente com música dele. Pena que esse nós não conseguimos completar e lançar. Só que depois ela fez a opção por uma música que não era a que eu queria produzir e desfizemos a parceria. Ainda tive uma rápida experiência com Rejane Luna e hoje trabalho exclusivamente com a carreira de Khrystal.

NS - Qual a importância do trabalho de produtor musical?
JD - Precisamos evidenciar os bons discos e os bons estúdios existentes na cidade. Hoje o artista não tem mais aquela história de pegar a mala e ir embora pra São Paulo. Veja o exemplo de Mirabô: um músico espetacular, que precisou voltar para Natal para ter o primeiro disco gravado.

Valéria Oliveira tem cada vez mais visibilidade tanto nacional quanto internacional. Feliz dessa cidade, que tem músicos como Tertuliano Aires - por sinal, uma das minhas maiores tristezas foi ter perdido a amizade dele por causa do trabalho... O que eu queria era ter tempo e capacidade de organização para montar uma cooperativa de artistas que funcionasse realmente.

Cada associado entrava com um capital inicial de R$ 1.200. Então, com 100 artistas, teríamos um capital inicial de R$ 120 mil. Aí não se precisaria mais que artista potiguar fosse mendigo, porque seria que nem a Unicred: um banco só para artistas, que ele usaria para financiar um show, um CD e não precisasse morrer na mão de ninguém.

NS - Para você, que passou vários anos num projeto do poder público, como foi passar a trabalhar com a iniciativa privada?
JD - Na verdade, quem bancava o Seis e Meia era a iniciativa privada. Eu nunca faria o projeto se não fosse a Fiern, o SESC, a Vasp, o Boticário. Foi uma parceria que deu certo ao ponto de o Seis e Meia em Mossoró também ser bancado pela iniciativa privada. Agora, depois que eu saí do projeto, nunca fui convidado para nada. Eu acho que merecia ser, pelo menos, porteiro do Seis e Meia. Pelo menos assim, ficava conhecendo a turma... (risos)

NS - Então, como você vê a gestão pública na área cultural?
JD - Eu fico muito triste com o que fizeram com a Fundação José Augusto e com o que fizeram com François Silvestre. Porque uma estrutura como aquela da FJA não pode ser engessada, como está agora. Se eu fizesse o Seis e Meia dependendo de trâmite de processo, ainda estaria pagando cachê até hoje.

Eu tenho medo que esse incidente do carnaval termine por engessar também a Capitania das Artes. Desafio qualquer um a provar que na gestão de François Silvestre, Crispiniano Neto, Dácio Galvão ou César Revorêdo tenha alguma safadeza. Não existe safadeza, porque eu não conheço nenhum produtor ou artista daqui que seja rico. O que pode existir é algum deslize operacional.

O que François fez, com as Casas de Cultura, e o que Crispiniano fez com esse prêmio Núbia Lafayette, isso é um golaço. E tem outra coisa: estão agora querendo que alguém para trabalhar na Capitania tenha certidão ideológica. Isso não existe. Revorêdo tem o direito de trabalhar com quem quiser, independente de quem a pessoa votou.



NS - Vamos falar de assuntos mais amenos. Você é conhecido pela memória musical prodigiosa. Sempre tem na ponta da língua o nome do cantor, do intérprete, do disco e até do ano de gravação. De onde veio essa capacidade?

JD - Do rádio. Apesar da surdez, meu pai sempre fez questão de comprar as pilhas para manter o rádio lá de casa tocando. Aliás, acho que a culpa por essa moçada de hoje não escutar música de qualidade é do rádio, que não toca mais coisa boa como na minha época, que se escutava Gil, Caetano, Chico todo dia.

Outra coisa: um dia de conversa com Grácio Barbalho vale mais do que quatro anos de qualquer universidade de música. Além do mais, no Seis e Meia, fiz amizade com pessoas como Tárik de Souza, Hermínio Bello de Carvalho, Edu Lobo.

Imagine aí você pegar um carro e fazer uma viagem de ida e volta até Mossoró do lado de Roberto Menescau? Então, tive a oportunidade de aprender muitas histórias.



NS - Você também é conhecido por ser um aficcionado por futebol. Como nasceu essa paixão?

JD - Por causa de meu pai... (pausa) Eu vi Alberi jogar! Tudo isso eu devo ao meu pai, que me levava para o estádio... (nova pausa) Hoje eu não vou mais. Meu filho me chamou de covarde porque eu não ia para o estádio. Mas, além de medo da violência, acho o futebol hoje muito feio. É feio o Equador chutar 39 vezes e o Brasil só 11.

Agora todo mundo tira onda do Brasil. Eu tenho o maior orgulho do meu país, que sempre foi conhecido pelo futebol e pela música. Mas, para você ver: essa semana a seleção, mesmo passando por esse tipo de situação, levou 25 mil pessoas para um treino em Porto Alegre.

Estamos falando de uma metrópole, talvez a sexta maior cidade do país. Isso não é um fenômeno? Prefiro muito mais ter esse sentimento do Brasil do que aquela coisa do Alex Medeiros, que fica gozando com o futebol dos gringos.

NS - E como está a música potiguar hoje?
JD -
Vai muito bem, graças a quem produz. Tem que se reconhecer o trabalho de Anderson Foca, de Nelson Rebouças, de Cida Campelo, de William Collier. Hoje, o Rio Grande do Norte tem a melhor cena de rock do Nordeste. Graças a quem? Ao trabalho de gente como Foca, como Jomardo. Todo mundo acha que é fácil fazer show na Ribeira... Vá produzir pra ver se é fácil!

NS - Fale da experiência de produzir sua mulher, Khrystal.
JD - Khrystal é o melhor presente que Deus me deu. Nela, encontrei uma pessoa na qual posso jogar todos os meus sonhos... (pausa) Khrystal é uma artista do caralho. Sabe quando você escuta Zeca Baleiro, Chico César? Quando vejo Khrystal no palco, para mim tá ali. É aquele tipo de artista que quer mudar a sociedade, que tem uma brasilidade e não faz só uma musiquinha.

NS - O que é preciso para trabalhar com Zé Dias?
JD - Eu tenho a frustração de não poder fazer mais. Faço esse projeto do Praia para poder acrescentar. Mandei um e-mail falando que estava vendendo camisetas a R$ 20. Na mesma hora, um juiz federal respondeu pedindo duas.

Por que as pessoas fazem isso? Por minha causa, por respeito ao meu trabalho. Se eu fosse rico, estaria com artistas como Sérgio Groove, Junior Primata, Antônio de Pádua, Tânia Soares, Isaque Galvão. Mas, fora da carreira de Khrystal e do Praia, não tenho como acompanhar mais ninguém.

NS - E para tocar no Praia Shopping Musical?
JD - Aí, basta ter um trabalho de qualidade. E, a partir de maio, vamos exigir que o camarada tenha pelo menos um disco para vender também. Porque você tem que gerar mercado. Não acredito em artista que não tenha produtor.

Veja o exemplo de Carlinhos Zens, com a mulher dele; de Valéria Oliveira, que tem ajuda de Mônica MacDowell; de Rodolfo Amaral, que começou com Marcelo Veni. Não é fácil construir uma carreira. E não se faz cultura sem dinheiro.

*Matéria publicada no jornal Nasemana - Edição 54 - de 04 a 11 de abril de 2009
 
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