Conheça um pouco da história do Estádio Juvenal Lamartine

Com o fim da "Era Machadão", o estádio do bairro do Tirol vai sediar o Campeonato Potiguar até 2014, e Brasileiros até 2013; lá vem história.

Rogério Torquato,
Fotos: Rogério Torquato, acervo PMN, arquivo Nominuto e Acervo Ribamar Cavalcante
O JL, com 82 anos de existência, vai voltar a viver dias de glória.

Depois de 82 longos anos servindo ao esporte do Rio Grande do Norte, e 39 anos de esquecimento imerecido, o histórico estádio Juvenal Lamartine, no bairro do Tirol, deve voltar a viver dias de glória, ao menos enquanto o Machadão dá lugar à chamada Arena das Dunas.

 

No meio da semana, abriu-se a possibilidade de uma reforma de verdade, "tocada" pelo Governo do Estado - dono do espaço há quase um século, quando adquiriu o terreno, erguei o estádio e o cedeu para uso esportivo para a então Liga de Desportos Terrestres (hoje FNF) e os clubes de futebol. O local deverá ser usado pelo América e pelo Alecrim para as competições do Campeonato Brasileiro das séries C e D respectivamente até 2013; e por todas as equipes de Natal no Campeonato Potiguar até 2014.

 

Quem pensa que o velho estádio do Tirol não tem história, é melhor pensar duas vezes...

 

"Foot-ball" nas praças

 

... mas para escrever sobre o JL é preciso recuar bem na história - mais precisamente até 1904, quando o futebol se estabeleceu em terras potiguares, com a criação do Sport Club Natalense, que em 1910 já não existia, ao menos aparentemente. Era o tempo das bolas de capotão, importadas, com costura de cadarço grosso, vindas de navio... e como não haviam estádios, o "foot-ball" era praticado principalmente (dá para acreditar?) nas praças e descampados.

 

"O futebol, então, era jogado nos descampados, como as praças André de Albuquerque e Pedro Velho - que não eram praças ainda, eram descampados mesmo", contou ao repórter, há muitos anos, o jornalista e desportista Luiz G. M. Bezerra. Outro lugar era uma extensa área próxima à hoje sede social do América, na Rodrigues Alves. Todos eram devidamente preparados antes da bola rolar...

 

"A partir daí foram surgindo muitos clubes, cada um trazendo sua bola; mas quando a bola de um clube estourava, os componentes deste clube se desagregavam, juntando-se a outros clubes. Naquele tempo, o 'bom jogador' era aquele que ou chutava bem alto ou bem longe...'', prossegue Bezerra. Mas era preciso botar o futebol em ordem.

 

``Veio Alberto Rosselli, que estudava na Suíça e também havia conhecido o 'Foot-Ball'. Ele trouxe as regras, e aí o futebol foi se organizando. Foi tanto, que no primeiro jogo de futebol, Rosselli foi o árbitro''. Isso durou até 1915, quando começaram a se formar clubes efetivamente organizados - "Nesta época surgiram o ABC, então composto basicamente por jogadores da região da Ribeira, os 'Canguleiros'; e o América, de jogadores da Cidade Alta, os 'Xarias'. Até que foi criado um terceiro clube, o Centro Esportivo Natalaense'' - Centro que na década de 1940 virou Atlético e resistiu até 1993. Também data de 1915 o Alecrim. Em 1917 surgiu a Liga de Desportos Terrestres (LDT, atual FNF), e o primeiro Campeonato Potiguar foi realizado no ano seguinte. O esporte foi lentamente se tornando popular, e começava a se tornar imperioso um local específico para ele.


Em outubro de 1928, surgiu o "Stadium Juvenal Lamartine"


Nasce o JL

 

E assim se fez: o Estádio Juvenal Lamartine (ou simplesmente o JL, no bairro do Tirol) foi inaugurado em 1928 - segundo dados do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte (IHGRGN). A data? Pelos arquivos dos jornais, a inauguração para valer foi no dia 12 de outubro daquele ano, feriado de Nossa Senhora Aparecida; apesar do primeiro jogo ter sido realizado no dia 28 de setembro - ABC 5 x 2 Cabo Branco-PB, numa "temporada" que envolvia ainda o América (para alguns, a inauguração foi nesse dia 28 de setembro, e não 12 de outubro, e por aí segue a controvérsia...). O primeiro gol no JL - ao que consta - foi marcado nesta partida por um jogador conhecido por Deão, do ABC.

 

O nome foi uma homenagem ao governador do Estado na época, Juvenal Lamartine de Faria - que, aliás, deu o primeiro passo, ao comprar o terreno de 11.834 metros quadrados, pouco tempo antes, a um particular. O preço? 74 contos de réis (escreve-se 74:000$000, grafia semelhante à do escudo português), moeda vigente à época - o valor, ao que consta, foi pago com Títulos da Dívida Pública. Uma nota alta...

 

Após o Governo do Estado adquirir a área, a mesma foi liberada para uso da então Liga de Desportos Terrestres - LDT (há quem comente sobre uma Federação de Desportos do Rio Grande do Norte, e ainda de uma Associação de Atletismo que teria sucedido a LDT), mais tarde Federação Norte-Rio-Grandense de Desportos - FND, hoje Federação Norte-Rio-Grandense de Futebol - FNF. Como tudo no futebol daquele tempo era importado (das expressões utilizadas até as bolas do jogo), o JL aparece - inclusive em fotos - como "Stadium Juvenal Lamartine"...

 

Enorme para a época

 

O projeto foi do engenheiro Clodoaldo Caldas. A capacidade do JL era, no início, de 600 pessoas sentadas em uma arquibancada de madeira (pelo número, não é necessariamente o atual setor coberto) e 3 mil ao redor do campo, num total de 3.600 pessoas - hoje, com um pequeno setor coberto de madeira e arquibancadas de cimento, a capacidade atual deve chegar a 4 mil pessoas. Toda a obra, diz a lenda, foi realizada em apenas seis meses...

 

Era um estádio enorme para a Natal da década de 1920, uma cidade que possuía pouco mais de 30 mil habitantes - o "Stadium JL" comportava então 12% de toda a cidade do Natal!! Não deu outra: o JL tornou-se o principal campo de futebol da cidade, talvez do Estado. E (curioso) o estádio alternativo, para partidas "menores", era o Estádio Senador João Câmara, aquele mesmo do bairro das Rocas, à Rua Esplanada Silva Jardim - apesar de alguns afirmarem, de pés juntos, que todos os jogos, todos!, eram realizados no JL mesmo.

 

Até 1946, jogo no JL só era possível à luz do dia. Nesse ano - os dados são de Luís da Câmara Cascudo, em "História da Cidade do Natal" - foi instalado o primeiro sistema de luminárias, permitindo partidas noturnas. A inauguração das luminárias foi no dia 13 de julho, com uma partida entre o América e o Treze-PB (não é outro senão o Treze de Campina Grande, da Paraíba) - o América venceu de goleada, 5 a 1.

 

Eis a ficha do jogo, recuperada pelo radialista, pesquisador e "curioso" esportivo Marcos Trindade:

 

América 5 x 1 Treze-PB

13.07.1946, jogo inaugural das luminárias do estádio Juvenal Lamartine. A partida começou rigorosamente às 20h45.

América: Caçula, Zeno, Hernani; Aládio, Vadeco (Nonato), Lavor; Natanael (Dão), Albano, Morais, Viana e Tico.

Treze: Djalma, Baleia, Raimundo; Martelo (Raimundo?), Marcial (Totota), Lulinha; Ercílio, Esmeraldo, Araújo, João Luís e Neguinho.

Gols: Albano (AME - de escanteio, 22/1.o, mas deu a impressão de ter ocorrido um toque de Tico), Araújo (TRE - 31/1.o); Albano (AME - 12/2.o), Morais (AME - 22/2.o), Dão (AME - fez dois gols)

Árbitro: Tong Ramos Viana

Local: Estádio Juvenal Lamartine

Renda e público: Cr$ 25.150,00 (público não informado)

 

A glória

 

O período de glória do JL foi nas décadas de 1950 e 1960 - uma fase de ouro no futebol de Natal.


Uma das formações do ABC da década de1950, com Gaspar e Jorge Tavares, entre outros

 

Foi um período pródigo em craques e ídolos locais. Começando por Jorge Tavares - o "Professor de Bola", campeão pelo ABC na década de 1950 e que deu muita "aula" no campo do Tirol, ganhando a admiração até dos adversários - passando por Pancinha, Saquinho, Wallace, Jácio Salomão - o quarto zagueiro mais espirituoso que já se viu na história do futebol potiguar, falecido recentemente - , Bagadão, Icário, Pedrinho, Valdomiro, Biu, Otávio, Gaspar, Anchieta, Capiba, Doutor Petit, Miltinho, Alberi (que deu seus primeiros passos no JL e pouco tempo depois se tornaria o "Rei do Machadão"), Esquerdinha, Talvanes, Pádua, Cândido, Erivan, Bastos, Franz... e - pasmem! - até Marinho Chagas (que, como Alberi, deu seus primeiros passos no JL; quando viu estava na Seleção Brasileira) e Mané Garrincha (o lendário Craque das Pernas Tortas jogou no JL, defendendo o Alecrim em um amistoso).

 

"No tempo do JL vi grandes nomes, grandes, como Jorginho (Tavares), para mim ele foi o maior!; Saquinho, Cileno, Cadinha (o quarto-zagueiro do ABC), Ribamar (goleiro), Erivan... no América tinha Alemão, Paúra, Garcia, Talvanes, Burunga... e um grande centro-avante chamado... Hélcio Jacaré!'', lembrou ao repórter, dia desses, o jornalista e radialista Roberto Machado, testemunha ocular da fase de ouro do JL, ao lado de gente do porte de Aluísio Menezes, Mirocem Lima, José Ari (que mais tarde se tornaria o pioneiro na narração esportiva na televisão potiguar), Almeida Filho, César Rizo, Rui Ricardo, Mário Dourado, José Augusto, Souza Silva...

 

O público em si também era algo memorável. Um dos momentos mais impressionantes foi um ABC x América em 1967. Decisão de campeonato. "A torcida do ABC já comemorava com lenços brancos na mão e tudo. Para eles, o título estava ganho", lembrou ao repórter, faz tempo, o craque Talvanes, na ocasião da partida defendendo o América. Bastava o empate para o ABC ser campeão. E aí... Roberto Machado prossegue - "Lembro que Souza Silva saiu do estádio no finzinho do jogo - estava 0 a 0 - para acompanhar a festa do ABC na sede do clube na Rua Potengi (onde está hoje o CCAB Norte). Aí Alemão fez gol para o América. Meu filho, aquele gol estragou a festa do ABC, foi um silêncio tu-mu-lar!!''. Talvanes, qual um repórter de pista, detalha - "peguei a bola lá atrás, passei por três e meti para Zé Irênio, que passou para Alemão". Placar final, América 1 a zero, campeão estadual.


Uma formaçao do América, com Wallace; o placar denuncia a época...

Mas o JL não era apenas dos jogadores, torcedores e radialistas. Haviam ainda os técnicos - como Pedro Teixeira, o "Pedro Quarenta", Geleia...


Pedro Teixeira dirigiu o Alecrim, entre outros times, na década de 1960

...Jorge Level, Hélio Lopes, entre tantos - , e os dirigentes - como Vicente Farache e Ernani da Silveira (do ABC), "Seu" Bastos Santana e "Seu" Braz (Alecrim), Humberto Nesi e Dilermando Machado (América)...


Hélio Lopes foi treinador do Riachuelo nos tempos áureos do JL

 ...o tenente Antônio de Castro (do Riachuelo) e João Machado (que foi dirigente do Atlético e presidente da FNF).

 

Também não se pode esquecer um nome em particular: "Seu" Emanoel Juvenal, que praticamente nasceu no estádio, foi funcionário de confiança de João Machado na FNF e até hoje é a memória viva do campo do Tirol; austero e exigente, cuida do gramado dentro das possibilidades e se anima quando vê algum atleta das bases mostrar futebol com F maiúsculo (para isso o jovem tem que jogar muita, mas muita bola mesmo, usar mais de jeito que de força com a esférica e cultivar o futebol-arte!).

 

"Seu" Emanoel Juvenal, a alma do JL, já viu muito jogo de primeira categoria.

 

E já que mencionamos futebol-arte e Garrincha, lá vem história. Era o dia 4 de fevereiro de 1968, quando Mané usou a camisa 7 do Alecrim em um amistoso contra o Sport-PE. O visitante pernambucano venceu pela contagem mínima, 1 a zero, gol de Dida, diante de mais de 6 mil pessoas; a partida rendeu Cr$ 21.980,00 (cruzeiros, moeda vigente a época). A formação do "Verdão"? Augusto, Pirangi, Gaspar, Cândido, Luizinho; Estorlando, João Paulo; Garrincha (Zezé), Icário, Capiba (Elson) e Burunga.

 

Para finalizar, mais clássicos entre ABC e América, o último no JL antes de ser inaugurado o hoje Machadão (à época Castelão) em 1972, foi no dia 23 de abril de 1972 (ABC 1 x 0, gol de Joilson); e o último da chamada "Era JL" foi a 15 de dezembro de 1971 (ABC 1 x 0, gol de Alberi).

 

Declínio

 

A chamada fase de ouro do JL (ou a "Era JL") praticamente foi encerrada com a inauguração do então Estádio Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco, o Castelão, num areial em Lagoa Nova no ano de 1972, com capacidade para 55 mil pessoas (pelas contas da imprensa, com base no máximo de pessoas possível que o local já recebeu; a bem da verdade, pelo projeto original e segundo seu arquiteto, o estádio comportava cerca de 37 mil pessoas) - denominado Estádio João Machado (Machadão) desde junho de 1989. De qualquer modo, o campo das Rocas deixou de ser usado para as partidas "menores", que passaram a ser realizadas no JL - algum tempo depois, nem isso.

 

O campo passou a receber ainda outro evento: durante alguns anos, entre 1970 e 1984, o local foi o palco do desfile de abertura dos Jogos Estudantis, hoje jogos Escolares do Rio Grande do Norte (JERNs, competição que, segundo rumores, pode ser "extinta" este ano caso algo não seja feito); esporadicamente, ali foram realizadas algumas partidas e mesmo finais de futebol do evento (a última final foi em 1997, com o Instituto Ary Parreiras campeão; a memória do repórter falha sobre se a categoria era mirim ou infantil).



As categorias de base têm guarida no JL

 

Mas, sem o futebol profissional e as partidas oficiais, o velho estádio do Tirol foi sendo abandonado, quase à sorte, o que se agravou na década de 1990. Hoje, o JL sedia algumas competições de categorias de base e por vezes de Masters, praticamente sem público; e um ou outro treino "perdido" de alguma equipe intermediária.

 

Caindo pelas tabelas

 

Os jornais da cidade, por mais de uma vez, mostraram a quantas andava o abandono do JL - que, após a criação do Machadão, sempre ficou bem longe de uma manutenção de verdade. Certo é que, com o deslumbre de muitos pelo campo da Lagoa Nova, o gramado do Tirol acabou parando no tempo.

 

Em 1989, por exemplo, já se registrava muito lixo, o madeiramento da parte coberta solto, poucas luminárias em funcionamento, as telas de proteção já não protegiam tanto assim, os sanitários estavam numa situação no mínimo malcheirosa... o então presidente da FNF, Pio Marinheiro, planejava solicitar algumas luminárias do (à época) Castelão, aumentar a capacidade das arquibancadas - com um setor de arquibancadas de madeira no fundo do estádio (se bem que, há muito tempo atrás, houve no JL uma arquibancada nesses moldes, provavelmente a tal com capacidade para 600 pessoas) - e havia a possibilidade do Campeonato Potiguar daquele ano ser realizado com o JL em obras... seis anos depois, a cena era a mesma

 

Em 1997 apareceram mesmo algumas luminárias que um dia foram do (hoje) Machadão, sendo devidamente instaladas - foi a principal obra realizada, e ainda assim só aconteceu devido a queda de uma gaiola do alto de uma das torres de iluminação do Machadão (todas as quatro torres existentes então eram puras "gambiarras", que seriam usadas apenas para a inauguração do então Castelão, em 1972, e que foram ficando...), forçando a substituição de todo o sistema de iluminação do estádio da Lagoa Nova. Algumas das luminárias (removidas) do Machadão foram postas no JL - um árbitro, Hercílio Vieira (se a memória não falha), que também era eletricista, fez a instalação! - , e o resto foi apenas cosmética...

 

Em abril de 2002, não havia nada de novo no front a não ser "maquiagem" - a pintura do estádio, remoção de lixo, capinagem. Na estrutura, nada - tanto que o setor de madeira apresentava-se bem esburacado, e inclusive com cupins (algum tempo depois, o setor foi interditado por conta dos cupins e da possibilidade imensa do setor desmoronar; basicamente a infestação de cupins se deu porque em uma reforma anterior, foi usada madeira de baixa qualidade a fim de baratear os custos).


Há anos o estádio vem resistindo ao esquecimento; o setor coberto ameaça desabar.

Fato curioso: o JL jamais foi tombado, mesmo com mais de 70 anos de serviço ao esporte.

 

Alternativo

 

Ainda assim, quando o "bicho pegava" no Campeonato Potiguar, mais de uma vez o JL foi a saída. O velho estádio do Tirol foi o palco dos campeonatos de 1984 e 1985, e em parte os de 1989, 1990 e 1997. Em quase todos os casos, o motivo foi o mesmo: o mau estado de conservação (e a consequente interdição) do Estádio Machadão. Isso, claro, às voltas com interdições no próprio JL também.

 

O ano de 1989, por exemplo, foi uma loucura. O Machadão (ainda com o nome antigo de Castelão) foi interditado para reformas pois meio mundo ameaçava desabar, os túneis estavam alagados, não havia outro remédio - foi acertado que as partidas seriam transferidas para o JL... que acabou sendo igualmente interditado por não oferecer segurança aos torcedores. E agora? O rebuliço foi grande entre dirigentes e autoridades, e depois de muita "mexida de pauzinho" a saída foi reabrir parcialmente o Castelão (claro, o JL "entrou no circuito", até depois voltar ao esquecimento).


Uma formação esquecida no tempo: o Atlético "Menino Travesso", com João Porquinho

A última vez que o JL foi usado no Campeonato Potiguar foi em 1997, quando o Machadão foi interditado, agora para a substituição do sistema de luminárias - mesmo assim, teve quem "melasse" a história: segundo os jornais impressos da época, o ABC jogou algumas vezes "sob protesto" de seus dirigentes, e gente ligada ao América colocou a Defesa Civil para interditar o estádio, considerando que o mesmo não oferecia segurança alguma. Assim que o Machadão voltou a sediar o futebol, o JL retornou ao esquecimento completo - a última benfeitoria no estádio do Tirol foi a substituição de suas luminárias... por algumas das luminárias antigas do Machadão, ainda em 1997.

 

"Por que não vender o estádio?"

 

Por várias vezes, o interesse comercial pela área (extremamente valorizada e considerada nobre) ameaçou a História. Vender o estádio para uma construtora qualquer? A ideia volta e meia vinha à baila, alguns dos dirigentes dos principais clubes (dá para acreditar?) pretendiam mesmo passar adiante o JL. De acordo com os arquivos dos jornais impressos, Em 1989, por exemplo, uma construtora paulista estava de olho na área; em 1995, em meio a rumores que a FNF havia doado o terreno do JL para o ABC o que jamais se concretizou), uma empreiteira local mostrou interesse pelo espaço; entre 1997 e 1999 surgiram novos boatos que o estádio seria vendido, em troca de um estádio a ser construído na Zona Norte de Natal (as opções seriam ou próximo ao conjunto Parque dos Coqueiros ou no meio do conjunto Santa Catarina; havia até um projeto-conceito, apresentado pelo arquiteto Gley Karlys - um estádio modular para até 15 mil pessoas), mas no fim não houve acordo, e o projeto foi para a gaveta (anos depois, o projeto saiu da gaveta, adaptado para o ABC, e se tornou realidade: é o estádio Frasqueirão, inaugurado em janeiro de 2006).

 

Voltando ao JL, os ânimos (e o olho grande nos bolsos) de construtoras e dos mandatários do futebol só arrefeceu com uma notícia, até então esquecida: o "pequeno detalhe" que o JL pertence ao Governo do Estado, não podendo ser vendido, permutado ou mesmo doado - a área foi cedida ao que corresponde hoje à FNF para a prática esportiva. O detalhe é que, segundo consta, quando o Estado aparece como "parte prejudicada" não há a tal da usucapião (o direito de posse pelo uso), menos ainda em caso de cessão e não doação. E, claro, no caso da finalidade à qual o terreno foi cedido deixar de ser realizada, o patrimônio automaticamente volta ao Governo...

 

Foi justamente o fato do terreno ser do Governo que abriu agora a possibilidade de revitalização - algo que vem sendo buscado há tempos pelo atual presente da FNF, José Vanildo.

 

Quem foi Juvenal Lamartine

 

Juvenal Lamartine (a pessoa, não o estádio!) foi um dos tantos Governadores do Estado. Assumiu no Ano-Novo de 1928, com o título de "Presidente" - por causa de uma alteração feita na Constituição Estadual em 1926. De acordo com dados de Câmara Cascudo (no livro História do Rio Grande do Norte), o homem tinha um pensamento "lá na frente": queria industrialização, rodovias, comunicações aéreas, voto feminino (que era um tabu em todo o país), o escambal.

 

Em seu mandato, entre outras coisas, criou a Imprensa Oficial (em 28.01.1928); os municípios de Baixa (Baixa Verde, hoje João Câmara) e São Tomé; reorganizou a Polícia Militar (sim, a PM de então), que passou a se chamar Regimento policial Militar; e foi o pioneiro do voto feminino no país (pelo menos foi o que Cascudo escreveu em 1955) - Júlia Barbosa Cavalcanti foi eleita para o Conselho Municipal do Natal, e Alzira Teixeira Soriano assumiu a Prefeitura de Lajes.

 

Na área dos esportes, além da inauguração do JL (o estádio), o JL (a pessoa) deu sua contribuição à fundação do Aero Clube (29.12.1929) ao lado de Fernando Gomes Pedroza e do comandante Manoel Augusto Pereira de Vasconcelos - prestigiou a Escola de Pilotagem (que existe até hoje, com o nome de Escola de Aviação Civil), e ainda por cima conseguiu 28 campos de pouso no interior do Estado.

 

O homem só não fez mais porque a Revolução de 1930 interrompeu-lhe o governo - e aí JL teve que abandonar a cidade em 05.10.1930; no dia seguinte, a cidade estava tomada por militares revolucionários, vindos da Paraíba. Mas esta é uma outra longa história...

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