Ele respira esporte: Jonaldo Batista

Respeitado dentro e fora do Rio Grande do Norte, o árbitro coleciona histórias importantes e engraçadas do gramado.

Arthur Dantas,
Fotos: Cedidas
Embora tenha feito carreira e sucesso no futebol, o trabalho como jogador não foi exatamente o caminho amarrado por Jonaldo Batista.

Desde cedo, a preferência pela arbitragem já se sobrepunha aos desejos de fazer sucesso como jogador e, justamente por isso, o garoto natural de Macaíba deixou as peladas de lado para fazer as vezes da bandeira e árbitro na Liga Desportiva das Quintas.

Em 1980, quando reativou o centro em conjunto com alguns amigos, as peladas organizadas eram "apitadas" por ele, já que contratar um juiz para comandar uma partida interbairros era muito caro.

Jonaldo lembra que nas Quintas o campo estava sob a responsabilidade do seu apito, enquanto outro amigo assumia o controle de um campo um pouco mais distante dali, em Nova Descoberta: Milton Otaviano.

Apitando sem conhecimento, apenas por admiração, os jogos ganharam sequência nos campos de outros conjuntos de Natal, como o Soledade II, Santa Catarina e unidades militares espalhadas pela cidade.

Pouco tempo depois, estava em campo para passar pela sua prova de fogo: arbitrar em partidas do Campeonato Estadual de Futebol da segunda divisão e nos jogos do Matutão, campeonato disputado apenas por clubes do interior.

"Ali você sabia se tinha condições de apitar uma partida porque os jogos eram muito disputados. Caso se saísse bem, poderia ser promovido a apitar jogos da primeira divisão", diz.

Para isso, era necessário, então, algo mais do que vontade para apitar. Um diploma. Em 1988, decidiu dar ares mais sérios ao ofício e se inscreveu em um curso para formação de novos árbitros, promovido pela Comissão Estadual de Arbitragem de Futebol (CEAF), presidida na época pela figura de Jader Corrêia.

Em 1990, recebeu o sinal verde para trabalhar como árbitro e assistente e três anos mais tarde passou a integrar o quadro de árbitros da Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

A partir desse ponto, surgiram as oportunidades de trabalhar em campeonatos promovidos pela entidade, chegando a atuar em partidas nos estados do Nordeste, como Bahia, Pernambuco, Ceará, Alagoas, em eventos Norte-Nordeste. Ele também marcou presença no Pará e em Campinas, São Paulo.

Mesmo com a postura firme dentro de campo, Jonaldo não fez vista grossa aos casos engraçados que acompanhou de perto aos longos dos anos.

Com o sorriso estampado, lembrou do jogo entre Baía Formosa e Flamengo de Baía Formosa que apitou na cidade homônima. "Eu não sabia que o campo ia estar tão lotado".
A outra surpresa foi saber que as torcidas não se misturavam.

"Quando vi de um lado, estava o PDS e do outro, o PMDB. Eu lembro que o jogo foi muito puxado e faltando um minuto para acabar, eu encerrei a partida. Como o empate classificava as duas equipes, sai carregado nos braços dos prefeitos, vereador e torcedores", lembra.

Outro caso dentro do campo foi na decisão do Campeonato Estadual — "não me lembro o ano" — entre ABC e América. Insatisfeitos com o resultado parcial da partida, torcedores do alvinegro jogaram um foguetão no campo que acabou explodindo próximo ao ouvido de Jonaldo. "Eu lembro que minha vista apagou, meu ouvido ficou zunindo e os torcedores gritando 'morreu a margarida'", ri.

Outro fato cômico aconteceu em Pau dos Ferros na ocasião do jogo entre Pauferrense e América. Um jogador foi se queixar a Jonaldo de um lance. Com a bola parada, o atleta peitou o árbitro que caiu em seguida. "Na verdade, eu caí de propósito.

Ele veio correndo e esbarrou em mim", lembra. "No jogo, os jogadores de ambos os times saíram de campo sob uma chuva de pedras, que chegou a tirar sangue de alguns dos atletas. Foi difícil apitar lá".

Para contornar situações difíceis que viveu como árbitro, ele disse que só fazendo ouvido de mercador para não ouvir tudo o que vem da torcida e do banco de reserva dos times. Outra dica é saber separar os atletas dos amigos e não deixar que as coisas influenciem em campo.

"Árbitro bom não aparece na partida e ele tem que fazer o espetáculo brilhar. O espetáculo é dos jogadores", ensina.

Mesmo com habilidade com as regras, Jonaldo usou um dos fundamentos básicos do futebol para aplicar à vida. Há seis meses, driblou um acidente vascular cerebral e com o apoio de amigos e da Federação Norte-rio-Grandense de Futebol consegue se recuperar com rapidez.

"José Vanildo tem me ajudado bastante com uma bolsa de medicamentos que preciso. Ele mostrou que faz muito pelos amigos e mais ainda pelo futebol do RN. Ele honrou essa casa desde que assumiu".

*Matéria publicada no jornal Nasemana - Edição 51 - de 14 a 20 de março de 2009
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