História das Copas: demorou, mas enfim o Brasil é tetra em 1994

O sonho demorou uma geração inteira para se tornar realidade nos "Istêitis", país pouco afeito ao futebol.

Rogério Torquato,
Fotos: Fifa, Agência Brasil e Presidência da República
É, ela - a Taça do Mundo - escapou de novo. Pela quinta vez. O Brasil estava mesmo sem sorte. NHACA! Tinha que ser. A "fila" crescia, desde o título de 1970 que os brasileiros buscavam o tetracampeonato: passaram-se 1974, 1978, 1982, 1986, 1990... nada.

Já batia uma certa falta de esperança. Mas uma nova edição estava às portas. Em 1994, a Copa foi realizada em "mares nunca dantes navegados" em continente americano. Mais precisamente, nos Estados Unidos. Quem sabe não era a hora e a vez dos "Canarinhos"? Por que não - e por que não? - vencer no país mais poderoso do planeta? Era uma possibilidade...


A Copa nos Estados Unidos

 

Peraí - Estados Unidos? É piada? Existe futebol nos "Istêitis"? Sim, as dúvidas estouravam feito pipoca nas mentes de muitos. É bem verdede que, àquela época, o futebol tipo association (por lá conhecido como "soccer", para diferenciar do futebol americano, que é bem diferente) era um esporte bastante incipiente, principalmente o futebol masculino. A Fifa, à frente João Havelange, botou na cabeça que tinha que superar aquela "última fronteira" - e apostou nos Estados Unidos.

É verdade que foram necessárias algumas adaptações e concessões, a fim de trazer uma multidão a cada jogo. Uma prioridade foi aumentar a quantidade de gols - com os times mais preocupados em não perder do que em vencer, o que ficou nítido na Itália quatro anos antes, ia ficar difícil. Foram feitas mudanças em aspectos como o chamado recuo de bola; falta por trás ou cometida pelo último jogador é caso para cartão vermelho; a pontuação pela vitória aumentou de 2 para 3 pontos; e, em caso de dúvida ante um lance polêmico, o árbitro decide a favor do ataque.

Como recompensa, o número de gols marcados aumentou em quase 22% e mais de 3 milhões de pessoas pagaram para ver os jogos em Los Angeles, Detroit, San Francisco, Orlando, Nova York, Chicago, Dallas, Boston e Washington.

De quebra, ocorream alguns momentos dignos de um "Me segura que eu vou ter um troço!". Por exemplo: em um dos grupos da priemira fase, a Bulgária terminou líder, superando a Argentina, e mais à frente mandou maus cedopara casa "apenas" a Alemanha (a atual campeã!); e a Suécia, sem levantar suspeitas, alcançou o terceiro lugar na competição - em segundo ficou a Itália... e o Brasil foi tetra!


A campanha do Brasil


A fase de Lazaroni deixou más lembranças (e legados), o Brasil precisava exorcizar aquilo de alguma maneira. A missão ficou a cargo de Carlos Alberto Parreira, com ajuda do "Velho Lobo" Mário Zagallo - bastante conhecidos em Copas, desde 1970. Mas estava difícil: o futebol feio, sem arte, burocrático e brucutu, que visava apenas a vitória e as multidões que fossem às favas, já estava entranhado.



O máximo que deu para se fazer foi "refinar" um pouco o estilo do Brasil: o time ganhou uma certa obediência tática, ganhou consistência na marcação e passou a ter uma dupla de ataque que fez diferença - Bebeto e Romário. Com isto, deu para passar "escorregando" nas Eliminatórias.

Em terras estadunidenses, Romário fez por onde se tornar um líder na seleção. Na primeira fase o Brasil venceu a Rússia (2 a zero) e Camarões (3 a zero) e empatou com a Suécia (1 a 1); na segunda fase, venceu os anfitriões Estados Unidos, 1 a zero; nas quarats de final, 3 a 2 sobre a Holanda; e nas semifinais, de novo a Suécia no caminho, e desta vez o Brasil venceu (1 a zero).

A final foi contra a Itália. Duas equipes tricampeãs, buscando o tetracampeonato. Vieram algumas (más) lembranças de 1982. Desta vez não havia Paolo Rossi, e sim Roberto Baggio. Não, 1982 não podia se repetir nem a pau! Não com os Canarinhos tão perto da taça!! Por outro lado, Brasil x Itália na final lembrava 1970... e naquela ocasião deu Brasil de "capote". Por que não repetir 1970 e ao mesmo tempo se vingar de 1982? Não era o escrete de 1970 (Félix, Carlos Alberto Torres, Brito, Wilson Piazza, Everaldo; Clodoaldo, Gerson, Pelé; Jairzinho, Tostão, Rivelino) nem de 1982 (Waldir Peres, Leandro, Oscar, Luizinho, Júnior; T. Cerezo, Sócrates, Zico, Éder; Serginho "Chulapa", Falcão) e sim um grupo que tinha que escrever sua história (Taffarel, Jorgnho - depois Cafu - , Aldair, Márcio Santos, Branco; Mauro Silva, Dunga, Zinho - depois Viola - , Mazinho; Bebeto, Romário).

Na hora do vamos-ver, brasileiros e italianos fizeram um jogo parelho no estádio Rose Bowl, em Los Angeles no dia 17 de julho, diante de pouco mais de 94 mil pessoas. No tempo normal as equipes, retrancadas, desperdiçaram chances de ouro, e o placar não passou do empate sem gols. Na prorrogação, venceu a retranca e persistiu o 0 a 0. Danou-se!

Pela primeira vez a Copa do Mundo foi decidida nos pênaltis. Pelo Brasil, Romário, Branco e Dunga converteram suas cobranças, enquanto Márcio Santos perdeu; pela Itália, Albertini e Evani converteram, Baresi e Massaro perderam... e, na última cobrança da série, quando se achava que a Itália ia empatar e forçar mais pênaltis, eis que Baggio espirrou a bola longe. Final, 3 a 2 para o Brasil. enfim, o tetra: a Taça do Mundo voltou a ser dos "Canarinhos", depois de longos 24 anos. De quebra, Romário foi eleito o destaque daquela Copa pela Fifa.



Mas o futebol... bem, basta dizer que o próprio Romário - tido por muitos como um dos raros artistas coma bola aos pés depois das gerações de 1970 e 1982, pouco importando em campo seu estilo "marrento" - é um dos poucos lembrados daquela competição por conta da sua criatividade, o resto... podemos resumir em um desafio: considerando que toda seleção (campeã, geralmente) que joga bonito e encanta as multidões tem a escalação lembrada do primeiro ao último jogador, alguém poderia dizer - não vale "colar"! - qual era a escalação do Brasil tetracampeão de cor?


Todos os jogos de 1994


Data Fase Grupo Jogo
17.06.1994 1 C Alemanha 1 x 0 Bolívia
17.06.1994 1 C Espanha 2 x 2 Coreia do Sul
18.06.1994 1 A Estados Unidos 1 x 1 Suíça
18.06.1994 1 A Colômbia 1 x 3 Romênia
18.06.1994 1 E Itália 0 x 1 Irlanda
19.06.1994 1 B Camarões 2 x 2 Suécia
19.06.1994 1 E Noruega 1 x 0 México
19.06.1994 1 F Bélgica 1 x 0 Marrocos
20.06.1994 1 B Brasil 2 x 0 Rússia
20.06.1994 1 F Holanda 2 x 1 Arábia Saudita
21.06.1994 1 C Alemanha 1 x 1 Espanha
21.06.1994 1 D Argentina 4 x 0 Grécia
21.06.1994 1 D Nigéria 3 x 0 Bulgária
22.06.1994 1 A Romênia 1 x 4 Suíça
22.06.1994 1 A Estados Unidos 2 x 1 Colômbia
23.06.1994 1 C Coreia do Sul 0 x 0 Bolívia
23.06.1994 1 E Itália 1 x 0 Noruega
24.06.1994 1 B Brasil 3 x 0 Camarões
24.06.1994 1 B Suécia 3 x 1 Rússia
24.06.1994 1 E México 2 x 1 Irlanda
25.06.1994 1 D Argentina 2 x 1 Nigéria
25.06.1994 1 F Bélgica 1 x 0 Holanda
25.06.1994 1 F Arábia Saudita 2 x 1 Marrocos
26.06.1994 1 A Estados Unidos 0 x 1 Romênia
26.06.1994 1 A Suíça 0 x 2 Colômbia
26.06.1994 1 D Bulgária 4 x 0 Grécia
27.06.1994 1 C Bolívia 1 x 3 Espanha
27.06.1994 1 C Alemanha 3 x 2 Coreia do Sul
28.06.1994 1 B Rússia 6 x 1 Camarões
28.06.1994 1 B Brasil 1 x 1 Suécia
28.06.1994 1 E Irlanda 0 x 0 Noruega
28.06.1994 1 E Itália 1 x 1 México
29.06.1994 1 F Marrocos 1 x 2 Holanda
29.06.1994 1 F Bélgica 0 x 1 Arábia Saudita
30.06.1994 1 D Grécia 0 x 2 Nigéria
30.06.1994 1 D Argentina 0 x 2 Bulgária
02.07.1994 2 U Alemanha 3 x 2 Bélgica
02.07.1994 2 U Espanha 3 x 0 Suíça
03.07.1994 2 U Arábia Saudita 1 x 3 Suécia
03.07.1994 2 U Romênia 3 x 2 Argentina
04.07.1994 2 U Holanda 2 x 0 Irlanda
04.07.1994 2 U Brasil 1 x 0 Estados Unidos
05.07.1994 2 U Nigéria 1 x 2 Itália
05.07.1994 2 U México 1 x 1 (pên: 1 x 3) Bulgária
09.07.1994 3 U Itália 2 x 1 Espanha
09.07.1994 3 U Holanda 2 x 3 Brasil
10.07.1994 3 U Bulgária 2 x 1 Alemanha
10.07.1994 3 U Romênia 2 x 2 (pên: 4 x 5) Suécia
13.07.1994 Semifinal U Bulgária 1 x 2 Itália
13.07.1994 Semifinal U Suécia 0 x 1 Brasil
16.07.1994 Disp. 3º lugar U Suécia 4 x 0 Bulgária
17.07.1994 Final U Brasil 0 x 0 (pên: 3 x 2) Itália

Brasil tetracampeão



Curiosidades


  • Ao contrário das Copas de 1958, 1962 e 1970, desta vez não houve música comemorativa oficial da conquista da Copa do Mundo - ante o título, aproveitou-se o que tocava nas rádios na ocasião: "Festa", cantada por Ivete Sangalo (aquela que diz "...e vai rolar a festa/ vai rolar/ o povo do gueto/ mandou avisar/ que vai rolar a festa...") tocou até furar o CD... além disso, desde então uma conhecida rede de TV detentora dos direitos da transmissão da Copa tem usado a mesma trilha sonora para as chamadas de futebol - um "vinhetão" assinado pelo compositor e publicitário Tavito (que foi parceiro de Zé Rodrix e se inspirou em Miguel Gustavo, o autor de "Pra Frente Brasil")...

  • Uma serra elétrica a todo vapor no quarto, de madrugada. Era a impressão que Viola tinha de Ronaldinho (era como se chamava Ronaldo "Fenômeno" à época). O atleta reclamava que seu companheiro de quarto não o deixava dormir... tempos depois, descobrou-se a causa do ronco do futuro Fenômeno: problema de adenoide...

  • Sem querer ofender: alguém já viu um "negão" sueco? Pois existiu: seu nome era Martin Dublin, o único negro da seleção da Suécia, uma equipe inteira de louros "branquelos", negócio para chamar a atenção. Calma, há uma explicação: Dublin era filho de uma sueca com um negro americano cantor de blues.

  • Por conta da Copa, um jogador foi assassinado. Esta o Thyago Macedo não viu: o zagueiro Escobar, da seleção da Colômbia, acabou "com a boca cheia de formiga" pouco depois da equipe retornar para casa, eliminada pelos Estados Unidos - na ocasião, o marcador fez gol contra, a Colômbia terminou eliminada (na primeira fase) e ele foi considerado o grande culpado pela eliminação. Depois de discutir com quatro torcedores no estacionamento de um restaurante em Medellín, Escobar terminou com mais furos que um queijo de coalho de Caicó: o jogador levou de um desses torcedores - por acaso um apostador ligado ao Cartel do tráfico local - mais de uma dezena de tiros (algumas fontes citam 12, outras 15), todos à queima-roupa.

  • Foi em 1994 qe ocorreu o caso mais rumoroso de doping em uma Copa do Mundo. Diego Maradona foi pego no exame antidoping após a vitória da Argentina sobre a Nigéria (2 a 1) - foram detectados efedrina (um dos estimulantes mais usados nos casos de doping em futebol na ocasião) e mais quatro derivados sintéticos. O atleta foi suspenso por pouco mais de um ano e pagou multa superior a 15 mil dólares americanos. Claro, não faltou uma teoria conspiratória - os argentinos levantaram a possibilidade do craque ter engolido uma hóstia "batizada" (neste caso, no mau sentido) em uma igreja horas antes da partida...


Demorou praticamente uma geração - 24 anos - para o Brasil enfim gritar "Somos tetracampeões! PEEEEGUE!". As multidões, já desacostumadas e mesmo incrédulas, voltaram a acreditar que dava para ir mais longe. Por que não aproveitar o "embalo"... e conquistar logo o pentacampeonato? Estava posta a nova meta - o Brasil quer ser penta. Será que consegue? Isto é assunto para o próximo episódio...
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