História das Copas: o Brasil vira bagaço ante o Carrossel Holandês em 1974

Os Canarinhos buscavam o tetra e levaram até a "Bruxa" da Redinha, mas uma série de bobeiras fizeram o time sucumbir diante da Holanda e da Polônia.

Rogério Torquato,
Fotos: Fifa, WikiCommons, Rogério Torquato e Agência Brasil
No episódio anterior, o tri era nosso e ninguém tascava, a Taça Jules Rimet estava em posse definitiva do Brasil. Agora era só pensar no tetracampeonato. Desta vez, o desafio seria na Alemanha - no caso, a Alemanha Ocidental (aos mais novos: a Alemanha estava dividida em duas partes - ocidental e oriental - desde alguns anos após a Segunda Guerra Mundial, tinha até um muro separando a capital Berlim em duas bandas... muro este que foi ao chão em 1990, com a uniicação dos dois países).

Voltando ao futebol: para o Brasil era um desafio grande, com os alemães no auge, com Beckenbauer - que encarnou de vez o título de Kaiser, que fora-lhe dado pelas multidões em 1970 - à frente; e a Holanda trazendo uma inovação tática que dava medo aos adversários, o "Carrossel", entre outros.

Copa nova, caneco novo e... haja medo

Para começo de conversa, se a Taça Jules Rimet estava nas mãos definitivas do Brasil, então não havia mais taça para a competição. Prevendo esta (terrível!) possibilidade, a Fifa encomendou um novo caneco, a atual Taça Fifa, que foi exibida pela primeira vez justamente na Copa de 1974.

Por outro lado, a Copa de 1974 foi marcada pelo medo - medo de uma desgraça, como havia ocorido apenas dois anos antes. É que em 1972 o país - mais precisamente a cidade de Munique - sediou a Olimpíada, e lá aconteceu um atentado terrorista contra a delegação de Israel, composta por nove atletas. A polícia alemã não contou conversa: tentou decidir sozinha, partiu para a ignorância e... além de quatro terroristas (de um total de oito) e um policial mortos, não ficou um atleta de Israel vivo para contar a história, manchando a história da competição.

Para evitar uma repetição de um banho de sangue, passaram a ser tomadas medidas rigorosas de segurança nas competições internacionais, e o primeiro evento foi justamente a Copa de 1974: guardas armados até os dentes e muitos cães-de-guarda tomavam conta das concentrações, e os grandes nomes do futebol mundial eram acompanhados nas ruas por seguranças e carros de apoio. A paranoia foi tal que houve quem afirmasse que tinha mais segurança que torcedor...

A Copa na Alemanha


Nove cidades sediaram a Copa: Munique, Hamburgo, Dortmund, Dusseldorf, Gelsenkirchen, Frankfurt, Hannover e Stuttgart, além do setor ocidental de Berlim.

Enre idas e vindas, e muitos jogos depois, eis que as duas seleções consideradas favoritas decidiram a final - a anfitriã Alemanha Ocidental (com Beckenbauer, Gerd Muller e o goleiro Sepp Maier, sob comando de Helmut Schon) e a "Laranja" Holanda (com Neeskens e Cruiff, time comandado por Rinus Michels, o pai do "Carrossel Holandês"). Era a tarde de 7 de julho em Munique, diante de umas 75 mil pessoas. Neeskens, de pênalti, abriu o placar para a Holanda; a Alemanha, com Breitener, empatou de pênalti aos 25 minutos e, aos 43, Gerd Muller "virou" o jogo; no segundo tempo, a Holanda tentou reverter o jogo a seu favor, mas Sepp Maier estava segurando todas. No fim, a preparação física alemã prevaleceu, e não teve jeito da Holanda virar a partida. E assim, a Alemanha Ocidental conquistou a Taça Fifa.




O Brasil na Copa


Por ser o atual campeão, o Brasil não passou pelas Eliminatórias, estava classificado direto. Mas para conquistar o sonhado tetra, não bastava só nome: era preciso fazer bonito em terras alemãs. Só que estava difícil. O time sequer era sombra da equipe de quatro anos antes. Pelé "pendurou as chuteiras" da seleção em 1971 - há quem diga que nem os generais de plantão (lembremos, o Brasil viva o período do regime militar, justamente a fase mais cor-de-chumbo da ditadura!) conseguiram demovê-lo do contrário; Carlos Alberto, Tostão e Gerson fizeram o mesmo, além de Clodoaldo. Outros tricampeões de 1970 ficaram, como Jairzinho e Rivelino (que "herdou" a camisa 10 de Pelé, um peso considerável).

Mas a moral no começo estava alta, tanto entre os atletas quanto entre a população - a ponto de ser gravado um hino oficial, historinha que vamos contar a qualquer momento... Foram convocados os goleiros Emerson Leão (Palmeiras), Waldir Peres (São Paulo) e Renato (Flamengo); os laterais Zé Maria (Corinthians), Nelinho (Cruzeiro), o potiguar Marinho Chagas (direto da praia da Redinha para o mundo; quando foi convocado, estava no Botafogo) e Marco Antônio (Fluminense); os zagueiros Luís Pereira (Palmeiras), Alfredo Mostarda (Palmeiras) e Marinho Peres (Santos); os meiocampistas Piazza (Cruzeiro), Paulo César Carpegiani (Internacional), Rivelino (Corinthians; acabou herdando a camisa 10 de Pelé, um peso e tanto), Leivinha (Palmeiras), Dirceu (Botafogo), Paulo César Caju (Flamengo) e Ademir da Guia (Palmeiras); e os atacantes: Jairzinho (Botafogo), Valdomiro (Internacional), Mirandinha (São Paulo), César (Palmeiras) e Edu (Santos).



Sem eliminatórias, o Brasil fez diversos amistosos. Mesmo com tantos valores, o time andou capengando, deixando torcedores apreensivos. Será que foi essa campanha de altos e baixos a inspiração para a música "Camisa 10", interpretada por Luiz Américo? Como foi lançada entre 1973 e 1974, bem capaz... em breve, a gente conta um pouco da história dessa música, aguardem...

Em terras alemãs, na primeira fase o Brasil se classificou "escorregando" para a fase seguinte - o time comandado por Zagallo, atuando retrancado, empatou com a Iugoslávia e com a Escócia (nos dois casos, 0 a 0!) , e venceu por 3 a zero o Zaire (estreante em competições).

Mas, na segunda fase, os "Canarinhos", depois de vencerem a Argentina e a Alemanha Oriental, viraram bagaço para a Holanda (que tinha o apelido de Laranja Mecânica - título de um filme de sucesso na época - tanto pelos uniformes quanto pelo esquema do "Carrossel": dois jogadores recuados, dois avançados e o resto girando em campo, ora atacando, ora defendendo; quando o adversário caía em si, estava cercado, perdido e sem a bola). Antes do jogo fatídico, Zagallo fez aparentemente pouco caso do inimigo - "Quem é a Holanda?", indagou.


Erro crasso e clássico, que em seguida custou um lugar na fase final (a Holanda venceu, 2 a zero). Isto fez o Brasil terminar com o segundo lugar em seu grupo da segunda fase - o que permitiu ainda disputar o terceiro lugar.  Não fosse o tropeço ante os holandeses, o Brasil teria sido primeiro colocado em seu grupo, e teri disputado a final contra os alemães ocidentais.

Mas, voltando à história: a seleção brasileira disputou o terceiro lugar com a Polônia, e perdeu por 1 a zero - e, por estes lados, só se ouvia "Camisa 10" de Luiz Américo nas esquinas...

Todos os jogos de 1974

Data Fase Grupo Jogo
13.06.1974 1 2 Brasil 0 x 0 Iugoslávia
14.06.1974 1 1 Alemanha Oriental 2 x 0 Austrália
14.06.1974 1 1 Alemanha Ocidental 1 x 0 Chile
14.06.1974 1 2 Zaire 0 x 2 Escócia
15.06.1974 1 3 Suécia 0 x 0 Bulgária
15.06.1974 1 3 Uruguai 0 x 2 Holanda
15.06.1974 1 4 Polônia 3 x 2 Argentina
15.06.1974 1 4 Itália 3 x 1 Haiti
18.06.1974 1 1 Chile 1 x 1 Alemanha Oriental
18.06.1974 1 1 Austrália 0 x 3 Alemanha Ocidental
18.06.1974 1 2 Escócia 0 x 0 Brasil
18.06.1974 1 2 Iugoslávia 9 x 0 Zaire
19.06.1974 1 3 Holanda 0 x 0 Suécia
19.06.1974 1 3 Bulgária 1 x 1 Uruguai
19.06.1974 1 4 Haiti 0 x 7 Polônia
19.06.1974 1 4 Argentina 1 x 1 Itália
22.06.1974 1 1 Alemanha Oriental 1 x 0 Alemanha Ocidental
22.06.1974 1 1 Austrália 0 x 0 Chile
22.06.1974 1 2 Zaire 0 x 3 Brasil
22.06.1974 1 2 Escócia 1 x 1 Iugoslávia
23.06.1974 1 3 Suécia 3 x 0 Uruguai
23.06.1974 1 3 Bulgária 1 x 4 Holanda
23.06.1974 1 4 Polônia 2 x 1 Itália
23.06.1974 1 4 Argentina 4 x 1 Haiti
26.06.1974 2 A Brasil 1 x 0 Alemanha Oriental
26.06.1974 2 A Holanda 4 x 0 Argentina
26.06.1974 2 B Suécia 0 x 1 Polônia
26.06.1974 2 B Iugoslávia 0 x 2 Alemanha Ocidental
30.06.1974 2 A Alemanha Oriental 0 x 2 Holanda
30.06.1974 2 A Argentina 1 x 2 Brasil
30.06.1974 2 B Alemanha Ocidental 4 x 2 Suécia
30.06.1974 2 B Polônia 2 x 1 Iugoslávia
03.07.1974 2 A Holanda 2 x 0 Brasil
03.07.1974 2 A Argentina 1 x 1 Alemanha Oriental
03.07.1974 2 B Suécia 2 x 1 Iugoslávia
03.07.1974 2 B Polônia 0 x 1 Alemanha Ocidental
06.07.1974 Disp. 3º lugar U Brasil 0 x 1 Polônia
07.07.1974 Final U Holanda 1 x 2 Alemanha Ocidental

Alemanha Ocidental campeã


Curiosidades


  • A Copa de 1974 foi a primeira que o Brasil viu pela TV em cores - o sistema para tal (o famigerado PAL-M, uma combinação à brasileira do sistema estadunidense NTSC - padrão em preto e branco desde a implantação da TV no Brasil em 1950 - com o sistema de cor alemão PAL, à época mais avançado que o NTSC) foi adotado em 1972.

  • A preparação do Brasil, apesar de ter vários militares na comissão técnica, foi um pouco tumultuada. Para se ter uma ideia, nem o clima o grupo acertou... consta que o chefe da delegação, Antônio do Passo, passou na Europa meses antes da Copa e garantiu que a cidade de Fellsberg, local escolhido para a concentração brasileira, teria um sol de derreter juízo no período de maio e junho. Porém, na hora do vamos-ver... o Brasil encarou um frio de rachar, com direito a neve!

  • Falando em Marinho Chagas, o único potiguar que participou de uma Copa do Mundo, o homem ficou conhecido como "A Bruxa", para começo de conversa... aliás, ele por si constitui um capítulo à parte, uma história que contaremos em breve...

  • Pela primeira vez Brasil e Argentina se encontraram em uma Copa do Mundo. Na ocasião deu Brasil, 2 a 1 - e a pendenga entre os dois países em termos futebolísticos, antes restrita à América do Sul, a partir daí ganhou proporções mundiais.

  • Em Brasil 0 x 2 Holanda, o jogo onde o Brasil virou o "bagaço da Laranja Mecânica", um bandeirinha - era a denominação do atual árbitro auxiliar - viu Marinho Peres barbarizando com o holandês Neeskens e ficou na dele, não falou nada para o árbitro principal. Só que o chefe da comissão de arbitragem da Fifa, Ken Aston, viu a presepada lá das tribunas (não, não havia "tira-teima" de tevê nenhuma, e nem precisava...) e "arregaçou": Marinho Peres foi suspenso por um jogo, e o tal árbitro auxiliar - que, dizem, estava cotado para a grande final! - acabou na geladeira...

É, o sonho do tetracampeonato ficou para o ano de 1978, paciência... Quem sabe o Brasil não teria sorte melhor na Argentina? Aguardeos, pois, o próximo episódio...


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