Joca Júnior: ele respira esporte

20 anos de surf foram suficientes para o curraisnovense conhecer boa parte do mundo e colecionar uma bagagem tão boa quanto as ondas que dropava.

Artur Dantas,
Fotos: Rogério Vital
Joca Júnior foi destaque em revistas especializadas em surf.
O celular não para e a preocupação com o comércio também não. No passado, o telefone que servia para fechar novos patrocínios ao surfista, serve hoje para atender aos interesses empresariais e para fazer novos contatos. De calça jeans, camisa e tênis, Joca Júnior pouco parece com o esportista que utilizava no máximo neoprene, bermuda e parafina nos tempos de competições.

Nascido em Currais Novos, Joca se mudou para Natal aos 11 anos de idade, quando o pai fez a inscrição no recém criado conjunto Ponta Negra. A ideia era que o filho fosse jogador de futebol. Para isso, investiu tempo e esperanças nesse sonho, chegando a matricular o filho nas escolinhas do ABC, Alecrim e América. Entretanto, o destino traiu os dois e já tinha pensado em uma nova maneira de Joca dropar a vida.

Quando voltava da escola, Joca tinha destino certo: a casa de Tatá, professor de capoeira que também fazia conserto em pranchas de surfe. Certo dia, quando os reparos já tinham sido encerrados, veio o convite que mudaria a vida do garoto. “Eu ia pra casa dele e ficava conversando sobre capoeira. Um dia ele me chamou pra fazer companhia na praia. Eu não sabia nem pra onde ia mar, nem nada”, confessou.

Depois de alguns minutos nas ondas, Tatá volta à areia e pede para que Joca arriscasse uma “remadas”. O que não esperava era que o menino ficasse em pé no primeiro contato com a prancha. “Ele ficou impressionado. Disse ‘como pode no primeiro dia você já ficar em pé e conseguir pegar onda? Depois, Tatá disse que eu tinha que pedir uma prancha para o meu pai”, contou.



Nesse momento, veio a complicação. “Ai foi a novela. Como eu ia pedir para ele? Ele brabo que só, queria que eu fosse jogador de futebol e ainda tinha a preocupação da época que era o ‘surfista drogado’”, completou.

Mesmo sem conseguir a prancha, Joca seguiu em frente, dividido entre os treinos na escolinha de futebol do América e as ondas de Ponta Negra. A dedicação ao mar trouxe resultados rápidos. No primeiro campeonato de surfe que participou, foi 5º colocado, eleito a revelação da competição, além de ter recebido um troféu e roupas. “Depois disso, eu disse que ia que ia deixar de jogar bola, porque ficava só gastando o dinheiro do ônibus e não ganhava nada”, frisou.

E a trajetória de Joca continuou ascendente. No 2º campeonato que disputou, foi 2º lugar e no Norte-Nordeste conquistou o primeiro título, em 1985. A partir daí, veio um título após o outro, até que em 1988, foi vice-campeão brasileiro amador. No ano seguinte, participou do mundial amador no Japão, garantindo a profissionalização em seguida.

De 1990 até 2003, competiu nos campeonatos Brasileiro e Mundial. Participou de oito finais do Campeonato Brasileiro sagrando-se campeão em 1996. Em outras oportunidades, conquistou um 2º, 4º e 7º lugares. No mundial, ganhou a etapa da África do Sul, Espanha e fui à final em Portugal.

Entre os melhores resultados, registrou um 3º lugar no WTS (campeonato mundial) em 1996, mesmo ano que foi campeão brasileiro profissional e paulista. Entretanto, quando estava no auge, em 1997, sofreu uma lesão de grau dois na parte posterior da coxa, com o rompimento de quase todos os tendões, além do rompimento da musculatura. Joca passou quatro meses parado, em tratamento com “Filé’, o mesmo profissional que tratou Ronaldo. Ao todo, perdeu quase dois anos em recuperação.



O resultado da contusão foi a sua saída da elite do surfe. Contudo, o retorno ao WTS aconteceu em 2001, com 30 anos de idade. “Aí o pessoal começa a lhe chamar de velho, veterano, experiente e o patrocínio diminui porque você já passou do auge. Eu continuava fazendo a diferença, a ser um talento, mas a minha fase já tinha passado. Eu tinha bons resultados, mas nunca ia conseguir fazer o que tinha feito”, revelou.

Joca Júnior apontou ainda que no final da carreira, em 2003, enquanto participava de etapas do Campeonato Brasileiro e algumas do Mundial, surgiu a oportunidade de se dedicar a uma atividade fora da água: o açaí. “Foi uma chance que eu mergulhei de cabeça. Mas antes de parar mesmo, ainda disputei em 2005 o campeonato máster e fui campeão. Aí fechei todos os títulos do Brasil. Campeão amador em 1989, brasileiro profissional em 1996 e máster em 2005”, concluiu.

Momento de parar

Após 20 anos de dedicação ao surfe, Joca Júnior falou sobre o momento da aposentadoria. Segue o relato do esportista.

“Eu me preparei para parar em 2001, quando voltei para elite do mundial da primeira divisão. Eu tinha 31 aos e estava bem. Mas teve um atleta com 19 anos vinha participando. Eu estava melhor colocado que ele, mas o meu salário era quase a metade do dele, mesmo com melhores resultados, com experiência e nome. Mas os patrocinadores investiram no garoto porque ele era uma promessa. Pode ser o melhor de todos. Ninguém sabe até onde ele pode ir. As pessoas acreditam no jovem talento. Já eu, elas sabiam até onde eu tinha ido. Quando eu percebi isso, disse que tava na hora de montar alguma coisa com o dinheiro que eu consegui conquistar. Guardei uma grana, foi quando apareceu o negócio do açaí. Oportunidade não pode deixar passar. A carreira de atleta tem que saber até onde pode ir. Mas hoje eu me sinto mais como um pequeno empresário crescendo. As vezes eu olho para os troféus e pergunto: será que fui eu mesmo? Eu sou uma outra pessoa. Bato uma pelada, mais do que surfo e principalmente corro atrás dos negócios hoje em dia. Às vezes é tão distante para mim tudo o que eu consegui porque quando eu vou à praia surfar, meu físico não responde mais. Eu digo pra mim mesmo que queria surfar daquele jeito pelo resto da minha vida, mas não tem como. Mas não tenho nenhuma frustração. Eu tenho consciência que dei o meu melhor e só não consegui mais por causa das contusões. Eu poderia ter sido bicampeão brasileiro, conseguir resultados mais expressivos no campeonato mundial. Fui consciente da hora que tinha que para. Hoje, ajudo a nova geração. Meu filho de cinco anos também já está surfando. Tenho uma vida tranqüila, com família, negócios, sem muita badalação”.



Juventude e dinheiro

Joca Júnior revelou que a combinação dinheiro e juventude atrapalhou o rendimento nas competições.

“Quando você é novo, afeta mesmo e acaba perdendo facilmente o foco. Aconteceu isso comigo quando virei profissional no Japão. Quando se começa a ganhar dinheiro muito novo, quando não depende mais dos pais para ter um carro. É você e sua cabeça. Se não tiver um cara do seu lado para te colocar para treinar, traçar metas, é complicado”, explicou.

Joca disse que “perdeu tempo com festinhas” e todos os atletas da geração dele estavam na elite do mundial em dois anos. “Eu demorei cinco ou seis anos. As coisas estavam passando e eu perdendo tempo com festinhas. Quando eu me foquei, em 1995, tive a decisão de me esforçar, treinar mais, me concentrar mais, fui campeão no ano seguinte”, declarou.

Nova geração

O surfista disse que é mentor de alguns atletas da nova geração do surfe potiguar. Joca procura ajudar os meninos com o pagamento de inscrições em campeonatos, mas procura também falar sobre a importância dos estudos.

“Mesmo que eles não sejam campeões, eu estou fazendo a minha parte. Lá na frente, vem o reconhecimento. Eu digo muito a eles para estudar porque se a carreira de surfista não der certo, eles serão alguém na vida. Eu falo para eles terem concentração e ser bons naquilo que fazem. Tem que competir para ganhar. Não adianta ser apenas mais um. Digo isso aos meninos que freqüentam a escolinha de surfe de Paulo e Hugo, dois amigos meus”, comentou.

Competições

Joca Júnior cresceu longe de Natal. Ainda cedo, foi morar onde estavam os melhores patrocinadores, que estão em São Paulo, Rio de Janeiro e Santa Catarina. De 1991 até 2004, a permanência em Natal chegava há apenas dois meses por ano. No período restante, o atleta estava fora do Rio Grande do Norte.

“Eu vinha para Natal e passava dez, 15 dias no máximo. Depois viajava para as disputas da Europa, Estados Unidos, África. Depois vinham os campeonatos no Brasil, mas eram sempre disputados no Sul ou Sudeste”, detalhou.

“Algumas vezes eu fiz igual a jogador chinelinho que inventava contusão para não viajar. Dizia para o patrocinador que a prancha estava ruim e estava aguardando uma melhor, quando a verdade é que eu queria ficar mais um tempo aqui com a família, pegando água quentinha. Lá fora você só pega água fria”, brincou.

Joca definiu que a vida de surfista é boa, mas a rotina de viagens e competições é cansativa. “A vida é boa. Você conhece outras culturas, viaja muito. Eu aprendi um pouco de inglês, francês, mas nada de mais pra desenrolar porque eu sou muito calado. Mas adquiri muita bagagem. Nesses anos todos, eu fui no mínimo dez vezes para a França, dez para os Estados Unidos, para a Austrália. Se juntar tudo, dá pra dizer que passei quase um ano morando em cada lugar”, destacou.

Hawaii

Quando perguntado se o Hawaii tem as melhores ondas, o surfista foi enfático ao dizer que a maiores estão lá. “Temos ondas igual a Ponta Negra e umas que você só consegue entrar rebocado por um jet ski. Lá é a Meca do surfe por causa disso. As melhores ondas estão na Indonésia. Lá em conjunto de 13 mil ilhas. É cada onda perfeita. Na Indonésia é onde tem aquelas ondas que você fica desenhando no caderno quando é estudante. Apesar de ser um lugar perigoso por causa dos terremotos e tsunamis” falou.



A primeira vez que desembarcou na Indonésia foi através de um contato entre a Globo e o patrocinador da época. “Quando cheguei lá, só lembrei da época da escola. Fomos fazer uma matéria lá e não fui competir. Passamos dez dias em um barco só comendo peixe frito e sushi, vendo aquelas ilhas de areia branca cercada de água azul turquesa e com onda perfeitas quebrando ao lado. A paisagem era linda. Chovia e depois aparecia um arco-íris. Posso nunca mais ir para lá, mas vai ficar gravado no meu HD para sempre”, revelou.

Teahupoo, corte e limão

Teahupoo é uma praia conhecida pelos surfistas por causa do perigo que representa. Uma rasa bancada de corais, que fica próxima à superfície, causou a morte de dezenas de atletas. Apesar disso, Joca Júnior revelou que na praia, conseguiu o melhor resultado na primeira divisão.

Apesar de ter caído e se machucado, o desejo de ir as semifianais foi maior e ele continuou a dropar a onda. “Quando eu subi no barco, tinha um corte no no joelho e no cotovelo, que cabia a cabeça de um dedo dentro. O socorrista veio com limão para o ferimento e eu disse que não. Mas ele explicou que os corais de lá têm uma bactéria que pode causar uma infecção. Por isso, tinha que lavar o corte em carne viva com limão. Foi uma experiência ‘le-gal’”, sorriu.

ABC

Mesmo tendo jogado pela escolinha do América, Joca revelou que é torcedor do ABC. E mais do que isso: que entende de futebol e está antenado com novidades do clube. “Os meninos que chegaram sabem jogar, sabem tocar na bola, Claudemir, Gabriel Pimba, Éderson. Cascata é tarimbado, tem talento, mas é mais lento. Eu entendo de futebol, viu? Você é doido? Vou para todos os jogos. Eu joguei pelo América, na escolinha, mas torço pelo ABC e ele vai subir pra Série B porque o time ta bom”, comentou.

Joca revelou que por pouco não se tornou jogador de futebol. O motivo da desistência? Um peneirão. 200 meninos esperavam pela oportunidade de mostrar em cinco minutos o que sabiam fazer.

“O cara chegou pra mim e disse ‘vai, boy. É tu agora’. Eu peguei o passe e toquei para receber na frente. Nunca mais eu vi a bola. O cara pegou, fez uma finta, chamou o jogo. Porque ele sabia que tinha que mostrar o que sabia fazer naquele momento”, contou

Ele falou que ainda bate uma pelada com uns boleiros, mas reclama mais do que joga. “
Jogo em uma pelada de uns amigos. Os caras dizem é surfista? Veio fazer o que aqui? ai eu respondo que vim pra brincar. Eu posso não jogar bola, mas correr, eu corro muito. E reclamo que só a “bixiga”. O cara que chupa sangue no meu time, eu reclamo: “Bora, meu amigo, pelo menos sua a camisa aí. Veio pra cá só assistir o jogo?”.

Açaí

De acordo com Joca, a história do açaí em Natal começou com ele. A antiga Toca do Açaí, no conjunto Alagamar, era uma sociedade com um paulista. Depois da separação, a distribuição do produto foi o caminho que dura até hoje.

"Hoje eu tenho uma fábrica em Parnamirim que distribui os produtos pelos principais pontos da cidade. É um alimento riquíssimo em proteína e energético e está mudando o que as pessoas comem. Antigamente, você saia para comer bauru com refrigerante, hoje é o açaí. Estão dizendo que o açaí traz doença de barbeiro e gato, mas quem quiser saber se dá doença é só ligar pra mim e para meus funcionário, que comem todo dia e não ficam doentes”, concluiu.
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