Doze anos de um massacre que virou documentário

Nesta semana, completaram 12 anos dos dois dias em que Genildo de França matou 14 pessoas, em Santo Antonio dos Barreiros. Caso virou documentário.

Thyago Macedo,
Reprodução / Abelardo Nunes
"Diga a eles que parem de atirar e vá". Essas foram as últimas palavras pronunciadas pelo serial killer que tornou o pequeno distrito de Santo Antonio dos Barreiros conhecido em todo mundo. Há 12 anos, o ex-militar Genildo Ferreira de França cumpria sua promessa de vingança e, após matar 14 pessoas entre a noite do dia 21 e a manhã do dia 22 de maio de 1997, libertava suas duas reféns, entre elas uma filha de cinco anos, morrendo logo em seguida em confronto com a polícia.

A história, até hoje contada pelos moradores de São Gonçalo do Amarante, ganhará as telas do cinema no documentário "Sangue do Barro", a ser exibido dia 2, no Cinemark. O filme conta em detalhes a saga de "Neguinho de Zé Ferreira", querido por todos da região, que após perder seu filho Iure, atropelado na sua frente, transforma-se em "Rambo", e saí à caça daqueles que julgava ser inimigos.

Uma fina neblina caía em Santo Antonio, onde por volta das 19h do dia 21, Genildo Ferreira deixa sua casa, vestindo calça e camisa coberta por um colete camuflado. Na cintura uma pistola calibre 765 e na mão um revólver calibre 38, com um silenciador adaptado. Sua primeira vítima de uma lista que tinha pelo menos 20 nomes era o taxista Jairo Ribeiro da Silva. Ele namorava com a ex-mulher do seu algoz e estaria comentando na comunidade uma possível homossexualidade de Genildo.

Antes de dar continuidade à sua "missão", o ex-militar se precaveu de pegar duas reféns, Valdenice Ribeiro da Silva, 16 anos, e sua própria filha, de apenas 5 anos. A partir daí, tem início o "Massacre de Santo Antonio". Ao contrário do que muitos disseram na época dos crimes, nenhuma das vítimas foi escolhida aleatoriamente. Dos 14 mortos, todos eram considerados inimigos de Genildo, a maioria deles por espalharem na cidade que o ex-militar fissurado em armas e munições era homossexual.

Até mesmo o mudo Flávio Silva de Oliveira, que fazia gestos com as mãos indicando a suposta preferência do homicida por homens, foi assassinado. Tanto tempo depois das mortes, dona Maria Lucia Campelo da Costa se emociona ao lembrar do seu filho Antonio Josemberg Campelo da Costa, à época com 17 anos.

Lembro tudo que aconteceu naquele dia (22 de maio). "Acordei cedo e ele estava tomando banho para ir à Telern. Os vizinhos já estavam falando que algumas pessoas estavam desaparecidas e que tinham sido levadas por 'Neguinho'. Depois disso, nós recebemos a notícia que o policial tinha morrido e meu filho saiu para ir ver. Eu ainda disse pra ele não ir. Foi a última vez que nos falamos".

Josemberg, ou Berg, era conhecido como o mensageiro da Telern (hoje Telemar). Ele também foi assassinado na rua Rodrigues da Silva por colocar em dúvidas a sexualidade de Genildo Ferreira. O acesso de fúria de Neguinho não aconteceu de uma hora para outra. Testemunhas dizem até hoje que ele planejou a chacina com dois anos de antecedência e inclusive teria comprado caixão e terreno no cemitério da cidade.

Apesar da frieza e crueldade com que tirou 14 vidas, Genildo deixava claro que apenas estava "acertando contas". Um cunhado dele que presenciou a morte da própria irmã conta como foi o encontro com o serial killer na noite do dia 21. "Eu estava conversando na porta da cozinha com minha meia irmã [Mônica Carlos de França] quando ele chegou e atirou quatro vezes contra ela, errando apenas um. Em seguida, ele olhou pra mim e disse: 'corra porque não tenho nada contra você'. Eu nem olhei para trás e fui embora", relata Erasmo Fidelis de Sá.

Ele também teve o pai, Baltazar Jorge de Sá, e a madrasta, Teresa Carlos de Ribeiro, assassinados por Genildo Ferreira. "Para matar meu pai, ele chegou aqui no fim da noite chamando-o para ir ajudá-lo a fazer o parto de uma vaca. Ele foi e ao chegar ao matagal foi morto ajoelhado", conta Erasmo.

Apesar de ter tudo planejado, Neguinho não cumpriu sua missão em 100%. Um dos nomes que estavam na lista e não foi encontrado por Genildo é o cunhado dele William Duarte Nobre Junior. "Ele veio aqui em casa três vezes a minha procura naquela noite, mas eu vinha de viagem e o caminhão tinha quebrado. Depois de tudo, foi que eu soube que meu nome era o primeiro da lista dele".

William lembra que mesmo estando marcado para morrer foi o único que participou do enterro de Genildo. "Ele trabalhava para mim e nós sempre conversamos. Não sabia que ele guardava essa raiva de mim. Só sei que a situação dele se agravou depois que o filho dele morreu atropelado. Inclusive, o homem que dirigia o carro também estava na lista, mas ele não conseguiu matar", ressalta.

Toda saga de Genildo Ferreira teve início às 19h da quarta-feira (21) e teve fim por volta do meio dia da quinta-feira (22). Antes de morrer, ele escreveu uma carta pedindo perdão aos familiares e alegando que não cometeu os crimes por prazer. Em um dos trechos conseguidos pelo Nasemana, Genildo destaca: "Eu imploro perdão de todos que tentarem me compreender. Eu não fiz isso por prazer, fiz forçado".

Na seqüência, ele afirma: "deixo um forte abraço e um beijo pra toda minha família e que toda minha família não importa a religião, mas que todos se reúnam e construam uma forte corrente de oração para que Deus tome conta da minha alma. Adeus para todos". A carta é assinada e rubricada pelo próprio Genildo Ferreira.

O filme
O massacre de Santo Antonio ganhou as páginas dos principais jornais do Brasil e do mundo, sendo destaque no The New York Times e na rede de TV CNN. Agora, 12 anos depois a história, ganha as telas do cinema no documentário "Sangue do Barro".

Um dos produtores do filme, Genésio Pitanga, realizou pesquisa completa da história e também foi uma das testemunhas daquela semana sangrenta. "Eu cheguei a Santo Antonio por volta das 6h do dia 22. Foi uma das experiências mais impressionantes que vivi. Nós passávamos pelos locais, principalmente na área de matagal, assustados com a possibilidade de darmos de cara com Genildo", lembra.

Pitanga, que hoje é repórter policial da SimTV, foi convidado para produzir o documentário e relata que duas coisas ficaram marcadas na sua memória daquele caso. "A primeira foi a quantidade de corpos jogados em cima de uma caminhonete, pois o Itep não tinha carros suficientes. E a segunda foi o enterro coletivo no cemitério da cidade. Eram duas filas de caixões. O único que não se enterrou no local foi o próprio Genildo".

"Sangue de Barro" será lançado no próximo dia 2 de junho. O filme é dirigido por Fábio de Silva e Mary Land Brito e foi contemplado pelo edital Doc TV 4 - 2008 da TV Brasil. "Essa é a história de um homem que teve sua mente capaz de articular para o mal", destacou Genésio Pitanga.

Veja o trailer:



*Matéria publicada no jornal Nasemana - Edição 60 - de 23 a 29 de maio de 2009
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