Motorista do ônibus depôs à polícia e desapareceu

Aluízio Farias nunca foi localizado para responder pelas 19 mortes na tragédia do Baldo.

Fred Carvalho,
Reprodução
Aluízio Farias, motorista do ônibus.
No dia seguinte à tragédia, o então coordenador geral da Polícia Civil, delegado Maurílio Pinto de Medeiros, designou o delegado Pedro Avelino Neto para investigar o caso de modo especial.

Em 29 de fevereiro do mesmo ano, Pedro Avelino interrogou Aluízio Farias. O motorista disse que no dia anterior ao acidente foi chamado pela empresa Guanabara, onde trabalhava, para começar a fazer viagens às 18h40.

Aluízio falou que "por volta das 20h recebeu ordens para deslocar-se com o seu ônibus até a Av. 6 (avenida Interventor Mário Câmara), nas proximidades do mercado público". Ele faria ainda duas viagens naquela noite: uma para as Quintas e outra para a Cidade da Esperança, transportando blocos carnavalescos.

De acordo com o documento, o motorista reclamou com quem estava coordenando a saída dos veículos, pois o combinado seria que ele faria apenas duas viagens naquela noite. Porém, acabou concordando em fazer uma última.

Aluízio pegou o ônibus e se dirigiu à avenida Cel. Estevam, nas proximidades da antiga Casa Funerária São Francisco, para fazer o transporte da escola de samba. Pela versão de Aluízio, ao chegar nas proximidades da igreja de São Pedro, com os semáforos livres para o veículo, ele viajava a uma velocidade de 60 km/h a 70 km/h.

E que, ao se aproximar da praça Almirante Tamandaré, reduziu a velocidade ao notar que o semáforo estava fechado. O motorista alegou que passou pelo sinal com a velocidade entre 30 km/h e 40 km/h e que começou a descer a via no sentido Baldo.

Mas, ao se aproximar do Sindicato dos Motoristas, teria notado, subitamente, a saída de um veículo da rua que fica próximo ao viaduto, o que o obrigou a desviar o ônibus para a direita.

Em seguida, Aluízio alegou ter ido ao encontro de um caminhão estacionado, sendo obrigado a fazer nova manobra para a esquerda. Foi quando teria atropelado os integrantes do bloco. O motorista argumentou ainda que, ao encontrar as primeiras pessoas, ainda chegou a frear o veículo.

Após atropelar as primeiras pessoas, Aluízio Farias disse que reduziu o ônibus para a 3ª marcha, "tendo continuado seu trajeto, vindo a parar metros depois", segundo o depoimento. Ainda de acordo com o interrogatório, "ao estacionar o ônibus, o indiciado engatou a marcha ré, abriu a porta e foi ver o que tinha acontecido".

Aluízio disse ao delegado Pedro Avelino Neto que, ao descer do veículo, foi "agarrado por populares que se encontravam em volta do ônibus", e chegou a ter a camisa rasgada, fugindo em seguida.

O motorista passou em casa, trocou de roupa e foi para a casa de um primo em Parnamirim. Aluízio Farias negou que tivesse discutido com empregados da empresa Guanabara ou com integrantes da escola de samba.



Ele falou que não se lembra que tenha batido no Fusca que estava estacionado na praça Carlos Gomes, que a rua do acidente estava mal iluminada e que não avistou os componentes do bloco carnavalesco antes da tragédia. Fez questão de frisar que não teve "nenhuma contrariedade no dia do acidente".

Após prestar depoimento, Aluízio Farias Batista foi liberado pela polícia e desde então nunca mais foi visto. A tragédia do Baldo chegou a ser um dos temas do extinto programa Linha Direta, da TV Globo.

Em dezembro de 2005, uma simulação do acidente foi divulgada pela televisão em rede nacional. Mesmo assim, Aluízio Farias não foi localizado. O programa lembrou que Aluízio Farias já havia sido condenado anteriormente por outro atropelamento.

O júri

A juíza Eliana Alves Marinho Carlos, da 1ª vara Criminal de Natal, agendou para 13 de abril o júri popular de Aluízio Farias. "Isso só foi possível devido à edição da Lei 11.719, de 2008, que altera o Código de Processo Penal.Antes dela, o denunciado só poderia ir a júri popular se estivesse preso e presente à audiência. Agora não. Será uma espécie de julgamento à revelia", explicou a magistrada.

Essa lei passou vigorar em 23 de agosto do ano passado. Para o caso de Aluízio Farias, o que muda na prática é que, caso um dia ele seja localizado pela polícia, não vai mais aguardar os trâmites jurídicos para saber se foi considerado culpado ou não pelo júri popular. "Em 13 de abril próximo vamos saber se ele será responsabilizado ou não pelas mortes das 19 pessoas no carnaval de 1984", concluiu a juíza Eliana Alves.

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