Depois de 25 anos, responsável pela tragédia do Baldo vai à júri

Acidente, no carnaval de 1984, deixou 19 mortos e dezenas de feridos. Motorista responsável, que jamais foi localizado, será julgado em abril.

Fred Carvalho,
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Aluízio Farias perdeu o controle do ônibus e atropelou componentes do bloco "O Cordão do Puxa-Saco".
O acidente que praticamente pôs fim ao carnaval de rua de Natal completa 25 anos. A tragédia do Baldo, ocorrida na madrugada de 25 de fevereiro de 1984, resultou na morte de 19 foliões e músicos e deixou dezenas de pessoas feridas. E, passados todos esses anos, o responsável pelo acidente, o motorista de ônibus Aluízio Farias Batista, enfim, vai ser julgado.

A tragédia aconteceu à 0h50 do dia 25. Aluízio Farias, que trabalhava para a empresa Guanabara, perdeu o controle do ônibus de placas AB-7527/RN e atropelou componentes do bloco "O Cordão do Puxa-Saco". Estima-se que, no momento do acidente, cerca de 5 mil pessoas brincavam carnaval no bloco.

"O carnaval de Natal naquela época era realizado com blocos nas ruas, festa em clubes e desfiles de escolas de samba. Como a cidade era bem menor e não tinha toda essa violência de hoje, a participação popular era bem maior", relembra o guia turístico Carlos Eduardo Gonçalves de Jesus.

Ele só escapou do acidente porque havia passado a madrugada anterior na festa e teve que trabalhar durante todo o dia 24, véspera da tragédia. "Eu era frentista em um posto de gasolina na avenida Alexandrino de Alencar.

Na véspera, cheguei em casa com o dia já amanhecendo e tive que trabalhar logo em seguida. À noite, quando cheguei em casa para tomar um banho e sair novamente, não aguentei o cansaço e peguei no sono", conta, ainda emocionado.

Outro salvo por uma coincidência foi o gerente comercial Carlos Neto. "Ainda me arrepio todo por causa desse acidente. Ainda mais quando relembro que escapei porque tinha saído minutos antes para comprar uma cerveja com um amigo. Hoje posso dizer que fui salvo por aquela cerveja", lembra.

Carlos Neto disse que acompanhava o bloco desde a concentração, na avenida Presidente Bandeira. "Saímos de lá por volta das 23h30 e seguimos em direção ao Baldo. Assim que chegamos, eu e meu amigo Roberto Alves decidimos passar à frente do bloco e esperá-lo em um bar que ficava no cruzamento da avenida Rio Branco com a rua Apodi. Só deu tempo de chegar a esse bar e comprar a cerveja. Quando voltei para a rua já vi a cena trágica e escutei a gritaria das pessoas".

O produtor cultural Dickson Medeiros, que na época era presidente d'O Cordão do Puxa-Saco, também relata uma coincidência como tendo sido a salvação dele. "Na condição de presidente do bloco, eu tinha que ficar observando o funcionamento de tudo, principalmente da bandinha. Estava do lado dos músicos até o momento em que o bloco passou pela igreja de São Pedro. A partir daí passei a dançar com uma europeia, loira e alta. Fui para a frente do bloco e, quando estava no meio da subida da avenida Rio Branco, aconteceu o acidente. Estava de costas para o bloco e, ao me virar, vi a cena mais horrível da minha vida. Como foram muitas pessoas atingidas pelo ônibus, a avenida se transformou num verdadeiro mar de sangue. Passei uns cinco anos tendo pesadelos com aquele episódio".

O Cordão do Puxa-Saco, segundo Dickson Medeiros, iria se dispersar na Praia do Meio. "Estava programado que, no percurso, iríamos fazer algumas paradas em bares. Já tínhamos feito isso em dois e estávamos bem próximo do terceiro quando aconteceu o acidente". A previsão era que a folia naquela madrugada seguisse até o amanhecer do dia.

O Nasemana teve acesso às 447 páginas dos dois volumes do processo de número 001.84.000723-0. Os autos têm vários depoimentos de testemunhas e de sobreviventes da tragédia. Aluízio Farias foi denunciado pelo promotor de Justiça José Maria Alves em 30 de julho de 1984.


A denúncia relata que o ônibus transportava integrantes da escola de samba Malandros do Samba que tinham acabado de desfilar na avenida Presidente Bandeira e que retornariam às Rocas, bairro onde fica a sede da escola.

No documento, há um relato detalhado das circunstâncias que envolveram o acidente. Tudo teria começado com um desentendimento entre o motorista e os integrantes da escola de samba.

Apressados para ir embora, os passageiros começaram a puxar a campainha do ônibus, o que teria irritado o condutor do veículo. Pela denúncia, Aluízio saiu em velocidade "desabalada" pelas avenidas Coronel Estevam e Coronel José Bernardo, sem respeitar os semáforos durante o percurso. Após reclamações dos passageiros, ele teria respondido: "Se tiver que morrer, morre todo mundo".



Mesmo assim, Aluízio Farias continuou dirigindo de maneira imprudente. No trecho sob o viaduto do Baldo, quando a avenida José Bernardo passa a se chamar Rio Branco, ao fazer a curva antes da subida, Aluízio bateu a traseira do ônibus, próximo à porta de desembarque, na lateral dianteira de um Fusca, de placa DN-9799/RN, que estava estacionado no canteiro logo após a antiga Praça Carlos Gomes. A batida mudou a trajetória do ônibus, jogando-o para cima do bloco, que passava naquele momento do outro lado da avenida.

O promotor José Maria Alves lembrou ainda que "após o impacto o veículo dirigido pelo denunciado atropelou vários integrantes e acompanhantes da banda 'Puxa-Saco' que, após ligeira parada à praça Carlos Gomes, já retomava sua caminhada".



O ônibus passou pelo meio do bloco em alta velocidade, atingindo as pessoas num trecho de 86 metros, já na subida da avenida Rio Branco. "As pessoas foram atropeladas tanto na subida, como na descida, uma vez que o veículo ficou desgovernado e só foi parado porque um amigo nosso, Adailson Pereira de Oliveira, entrou nele e puxou o freio de mão", lembrou Dickson Medeiros. Adailson por pouco não foi linchado ao ser confundido com o motorista do ônibus.

Um laudo do Instituto Técnico e Científico de Polícia (Itep), assinado pelo perito criminal Emanoel Varela da Silva, em 27 de fevereiro daquele ano, afirmava que os sistemas de direção e segurança dos veículos envolvidos estavam funcionando corretamente. Todos os entrevistados lembraram-se da mobilização ocorrida na cidade naquela madrugada.



"Após o acidente, Natal parou para atender as pessoas vitimadas. Lembro que corri para socorrer minha amiga Simone Banhos Teixeira, que era estudante de Psicologia. Eu a coloquei no colo e peguei um táxi para o hospital Walfredo Gurgel. Infelizmente, assim que chegamos um médico pegou no pulso dela e me disse que a Simone estava morta. Em poucos minutos começaram a chegar mais vítimas e mais médicos e enfermeiros. A vontade de ajudar era tanta que alguns foram para o hospital de pijama", relembra Dickson Medeiros.

Além de Simone Banhos Teixeira, morreram no acidente: Wellington Teófanes de Assis, Walace Martins Gomes, Francisco Alves da Silva, Dinarte de Medeiros Mariz Neto, Abimael Florêncio Bernardo, Jaecy Cabral de Oliveira, Murilo Alberto Viana da Silva, Luiz Inácio da Silva, Esdras César da Silva, José dos Santos Xavier, Acelúsio Borges Gomes, Jethe Nunes de Oliveira, Benedito Alves da Silva, José Luiz da Silva, Milton Servita de Brito, José Félix de Lima, Astor dos Santos Dantas e Rizomar Correia dos Santos. Dezenas de pessoas ficaram feridas.
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