"Fora Micarla" faz novo ato de rua e marcha rumo à Câmara Municipal

Grupo se concentrou em frente ao Midway Mall, de onde saiu em caminhada para prestar apoio aos manifestantes que ocupam há três dias o legislativo.

Alisson Almeida,
Foto: César Augusto
Cerca de 300 pessoas estiveram presentes no movimento.
Pela terceira semana consecutiva, os integrantes do movimento “Fora Micarla” saíram às ruas para protestar contra a gestão municipal, pedir o impeachment da prefeita da capital e cobrar a instalação da CEI dos Aluguéis. Desta vez, o grupo estava em número mais reduzido (cerca de 300 pessoas), mas nem por isso menos dispostos.

Fotos: Movimento faz 4° ato pela renúncia da prefeita Micarla

 

A concentração começou às 18h, em frente ao Midway Mall, no cruzamento das Avenidas Senador Salgo Filho e Bernardo Vieira, o mesmo local do primeiro grande protesto, realizado no dia 25 de maio.

 

Assim como nos outros atos, a maioria deles era formada por jovens, mas havia também professores universitários, sindicalistas e militantes de movimentos sociais. Faixas, cartazes, batuques e apitos foram as armas usadas, mais uma vez, para expressar a insatisfação com a administração do Partido Verde (PV).

 

O trânsito só foi interditado quando o grupo saiu em caminhada, por volta das 19h, na contramão, pela Avenida Sen. Salgado Filho, no sentido Tirol – Centro, transitando por entre os carros. Mesmo com o contratempo, a maioria dos motoristas, atendendo à convocação dos manifestantes, buzinava para sinalizar seu apoio ao ato.

 

Ainda no trecho da Avenida Salgado Filho, antes do cruzamento com a Avenida Alexandrino de Alencar, o grupo mudou de faixa e interditou o trânsito por completo. Depois, seguiram caminhando pela Avenida Hermes da Fonseca, rumo à Câmara Municipal de Natal, onde, desde a terça-feira (7), um grupo de 70 pessoas se reveza no acampamento montado no pátio interno do legislativo.
Foto: César Augusto
No cruzamento da Hermes da Fonseca com a rua Jundiaí, o grupo sentou no asfalto.

No cruzamento da Hermes da Fonseca com a rua Jundiaí, o grupo sentou no asfalto, bloqueando novamente o trânsito nos dois sentidos das vias. Poucos minutos depois, os manifestantes continuaram a caminhada, até chegarem à porta da CMN.

 

A entrada do legislativo municipal foi palco de discursos acalorados contra Micarla, uma parcela da imprensa que eles acusam de estar “deturpando o movimento” e a bancada governista da Câmara, que atua para impedir o funcionamento da CEI dos Aluguéis.

Vídeo: #ForaMicarla faz passeata do Midway à Câmara Municipal

A crítica foi o tom do discurso do programador Halan Pinheiro, 24 anos, acampado desde o primeiro dia de ocupação na CMN. Ele negou que o movimento seja fruto de alguma “orquestração partidária”, disse que não há líderes no grupo e enfatizou que o coletivo “Fora Micarla” é “auto-gestionado”.

 

“Todos nós estamos na linha de frente do movimento. Não há líderes aqui. Não há ninguém por trás nos dando ordens. Nós somos auto-gestionados”, discursou.

 

A vereadora Sargento Mary Regina (PDT), autora do requerimento que deu origem à CEI dos Aluguéis, era a única representante da CMN presente ao ato. Em seu discurso, pediu que o movimento focasse suas atenções para pressionar o Bispo Francisco de Assis (PSB) a renunciar à presidência da comissão e dar lugar a um membro da oposição.

 

“O movimento já teve algumas conquistas. A primeira foi a ocupação da Câmara. A segunda foi conseguir trazer o vereador Edivan Martins (PV), presidente da Casa, para o diálogo. Graças a isso, o vereador Júlio Protásio, que participou do debate, pactuou com o movimento que faria uma reunião com o PSB para orientar o bispo a renunciar à presidência da CEI e dar o lugar à oposição. Agora, o movimento tem que focar no bispo e pressioná-lo a cumprir a decisão do partido dele”.
Foto: César Augusto
Vereadora Sargento Mary Regina (PDT) era a única representante da CMN presente ao ato.

Regina disse ainda que apresentou uma nova representação ao presidente Edivan Martins, em que pede a saída do vereador Albert Dickson (PP) da CEI.

 

“A clínica dele [Albert Dickson] recebe mais de R$ 50 mil por mês da Prefeitura. Ele não pode nem participar da CEI, muito menos ser relator”, denunciou, acrescentando que uma reportagem do portal Nominuto.com comprovou que a referida clínica pertence mesmo ao parlamentar.

 

Passavam das 22h quando cessaram os discursos e os manifestantes começaram a se organizar para entrar na CMN. Neste momento, houve um princípio de desentendimento entre o grupo e o chefe da Guarda Legislativa, Gilson Paiva, que tentou impedir a entrada dos protestantes.

 

A vereadora Sargento Regina e a presidente do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Natal (Sinsenat), Soraya Godeiro, foram chamadas para intermediar o impasse. Após um contato telefônico com Edivan Martins, o acesso à CMN foi liberado, mas somente para as pessoas que já estavam acampadas e usavam uma pulseira de identificação.

 

“Infiltrados”

Durante a caminhada para a CMN, surgiram algumas faixas que destoavam das demais. Em meio às mensagens com críticas à prefeita Micarla de Sousa, surgiu uma faixa direcionada à deputada federal Fátima Bezerra (PT).

 

“Fátima, cadê as emendas para Natal?”, dizia a inscrição na faixa, estendida por dois jovens, que declararam não saber o conteúdo da mensagem.
Foto: Alisson Almeida
Perguntados o que estava inscrito na faixa, eles responderam que se tratava de "alguma coisa contra Micarla".

Perguntados o que estava inscrito na faixa, eles responderam que se tratava de “alguma coisa contra Micarla”. Indagados mais uma vez sobre quem os havia mandado carregar aquela faixa, disseram se tratar de “um cara”, mas se recusaram a revelar o nome e, depois, se separaram e saíram correndo entre os manifestantes.

 

Um deles disse que se chamava Francisco Aguiar, afirmou ter 18 anos e contou que era aluno do 3º ano do ensino médio. Questionado sobre o nome da escola em que estudava, disse apenas que o colégio estava em greve.

 

Os integrantes do movimento alertaram para a presença de infiltrados entre eles, cujo objetivo seria provocar tumulto para deturpar o ato.

 

A vereadora Sargento Regina relatou que, enquanto participava de uma reunião plenária, nesta tarde, com os manifestantes do “Fora Micarla”, “infiltrados entraram na Câmara, plantaram drogas e camisinhas pelo prédio e fugiram pulando o muro”.

 

“Esse movimento que está aqui acampado é resistente, mas é pacífico. Esses covardes querem denegrir esse ato, mas não vão conseguir”, disse, em tom de desabafo.

 

O grupo recolheu e lacrou o material encontrado e tentou entregá-lo à Guarda Municipal, que se recusou a receber o pacote lacrado. A Polícia Militar chegou ao prédio, mas também não quis receber o produto.
Foto: César Augusto
Integrante do movimento preenche termo e entrega material encontrado no acampamento.

Após muita discussão, Dayvson Moura, integrante do movimento, aceitou ir ao Distrito Policial de Cidade da Esperança, acompanhado de um advogado, para entregar o pacote ao delegado de plantão e registrar um boletim de ocorrência.

 

Os manifestantes redigiram um termo manuscrito em que diziam que o material havia sido “plantado por pessoas alheias ao grupo, que evadiram-se pulando o muro da Câmara”.

 

Solidariedade

A dona de casa Zenilda de Medeiros, 48 anos, moradora do Parque das Dunas, na zona Norte, participou do ato e visitou o acampamento, batizado de “Primavera sem Borboleta”, numa referência ao apelido da prefeita, para oferecer sua solidariedade aos acampados.

 

Mãe de universitário e esposa de um ex-preso político, Zenilda afirmou que “sente na pele os efeitos da gestão Micarla de Sousa”.

 

“Ela está destruindo a cidade, principalmente na área da saúde, onde tudo está sendo privatizado e terceirizado. Eu já apresentei várias reclamações ao Ministério Público e espero que tomem providências”.

 

“Big Brother do Fora Micarla”

A estudante do curso de Técnico em Edificações do IFRN, Larissa Lorena de Almeida, 18 anos, está acampada desde o primeiro dia e disse que essa está sendo uma experiência “rica”.

 

“O acampamento é muito rotativo e a gente está se virando do jeito que pode. Hoje pela manhã, fui em casa descansar um pouco, mas voltei pra dormir. A convivência está sendo tranquila, apesar das pessoas serem tão diferentes. Aqui tem pessoas de diversos partidos, desde o PT, passando pelo PC do B, POR [Partido Operário Revolucionário], PSoL e o DEM, até os anarquistas”, contou.
Foto: César Augusto
Larissa Lorena, estudante do curso de Técnico em Edificações do IFRN.

Larissa classificou ainda os dias acampados como “fantásticos” e disse que o grupo até brinca chamando o acampamento de “Big Brother do Fora Micarla”.

 

Após horas de protesto e caminhada pelas ruas, os manifestantes que resistem ocupando a Câmara Municipal de Natal dividiram pizzas e refrigerante e, saciados, ainda fizeram uma última reunião no pátio do legislativo antes de dormir.
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