Os treze castelos de Zé do Monte

Ainda menino, Zé recebeu a aparição de Nossa Senhora, que lhe incumbiu da tarefa de erguer 13 castelos nos locais mais altos que pudesse.

Melina França,
Foto: Diego Ciriago
Com apenas sete anos, Zé do Monte, aceitou seu destino, resignado e humilde.
São 13 os castelos de Zé do Monte, construídos com as próprias mãos, sempre no alto de montanhas. Foi na Serra da Tapuia que o encontramos, escondido no município de Sítio Novo, se é que se pode chamar assim um apanhado de casas dispersas que se desdobram entre os relevos do planalto.

Chegou arrastando o corpo magro e enrugado por uma descida íngreme, apoiado em um pedaço de pau que bem poderia ser um cajado profético. “José Antônio Barreto não existe, é só um nome que me deram”. E é com este ar meio místico que se apresenta, envolto em uma numerologia da qual mesmo a lógica duvida. “Foi em 13 de março de 1940, quando ainda era menino, que recebi a aparição de Nossa Senhora. Estava no serrote dos Caboclos quando ela me deu essa missão: construir 13 castelos pra ela, o mais alto que pudesse”, confidencia.

Com apenas sete anos, Zé do Monte aceitou seu destino, resignado e humilde. “Deus quer dizer montanha, rocha que não se acaba. Quantos anos tem uma pedra, dá pra medir?”, indaga certo de suas convicções. E reverenciando as rochas, a materialização do imutável, que seguiu edificando seus castelos, sempre iniciando a obra no dia 13 de algum mês.
Foto: Diego Ciriago
Zé do Monte seguiu edificando seus castelos sempre iniciando a obra no dia 13 de algum mês.

E foi em outubro de 1984, mais de quarenta anos depois da revelação divina, que ergueu a homenagem na Serra da Tapuia. “No dia 13, se estiver chovendo, tudo o que eu pedir, eu recebo”, revela. Mas o pedido, completa, precisa ser feito mesmo no alto das montanhas “que é mais perto de Deus”. E para ficar mais perto do divino foi que Zé do Monte se mudou para a Tapuia, no terceiro castelo que construiu.

Só saiu porque levou uma queda e, com a idade, ficou difícil se locomover entre as muitas escadas e corredores da construção. Aliás, percorrer os caminhos de sua antiga morada é tarefa para poucos – os labirintos escondem tantos segredos que fica difícil elencar. “Uma salamandra mora aí”, comenta como quem não quer nada ao passar por um de seus corredores de pedra.

Em sua vizinhança, também são comuns cobras e todo tipo de bicho que escolheu a serra como lar. Ao passear pelo castelo, Zé do Monte logo fala ao neto Felipe: “Menino, leva um pau pro mode de aparecer alguma cascavel”. E enquanto o menino serve de guia com hábil conhecimento daqueles emaranhados, ele se perde durante nossa visita à sua obra. “Vá mostrar o observatório a eles que eu encontro vocês na capela”, diz antes de desaparecer numa curva qualquer de seus caminhos.
Foto: Diego Ciriago
Percorrer os caminhos de sua antiga morada é tarefa para poucos.

Inexplicavelmente, sempre que resolvia seguir por conta própria, aparecia no lugar marcado antes que pudéssemos suspeitar. Enquanto nos dirigíamos para o quartinho onde residia, foi claro: leve eles lá, eu não quero ir. Ao ser indagado por que, contudo, não respondeu.

Foram muitas as perguntas que ficaram sem explicação. Em dado momento, foi preciso aprender a apreciar as respostas de seus silêncios. Que se poderia extrair de um homem feito de rocha? Seria preciso escalá-lo pouco a pouco e, do alto, apreciar a vista. Da Serra da Tapuia, aliás, o mundo lá embaixo fica pequenininho. Quem sabe não estivesse Zé do Monte nos observando de igual altitude, longe demais para ser alcançado.

“Desde pequeno eu gosto de castelo e de montanha. Eu quero ser forte como uma rocha”, é o que confessa em meio a um sorriso calmo. Ele fala da infância passada na Paraíba, na cidade de Duas Estradas e em Pedro Avelino, já no Rio Grande do Norte. Com um forte sotaque nordestino de interior, não nega: "foi em São José do Mipibu que nasci".

Foto: Diego Ciriago
"Desde pequeno eu gosto de castelo e de montanha. Eu quero ser forte como uma rocha."

Apesar disso, ganhou o mundo ainda cedo. Militar aposentado, saiu de casa aos 18 para servir em Recife. Hoje, aos 77, a bagagem é grande. Ao final de incontáveis viagens, foi no “monte” que resolveu descansar. Zé mantém uma casa na Rua 25 de Março, vizinho ao colégio Ferreira Itajubá, mas pouco é o tempo que passa por lá.

“É na serra que se consagra a minha benção. E a prova da minha verdade é o relâmpago e o trovão. Por intermédio da montanha, o céu pode me ouvir nos dias 13 de casa mês, quando chove”. Por isso, construiu seus 13 castelos quase que como numa peregrinação: em todos os estados do Nordeste pelo menos um foi edificado, com exceção do Maranhão e de Sergipe.

Fala de Deus como se fosse um amigo próximo com quem senta para conversar do alto de suas montanhas, mas não proclama religião alguma. “Se eu disser que sou católico, serei um falso profeta”, ataca. Para ele, religião verdadeira não pode se prender a essas coisas – nomes, conceitos, ideologias inteiras que servem apenas ao capital. “Falso profeta é aquele que faz da religião uma profissão”.
Foto: Diego Ciriago
Zé fala de Deus como se fosse um amigo próximo com quem senta para conversar do alto de suas montanhas.

Mesmo assim, cobra uma quantia simbólica para apresentar o seu terceiro castelo, aquele da Tapuia, “que é pra os meninos que ficam aqui de guia. Eu não levo mais o povo pra andar por aí depois da queda”. Os demais castelos, os que ainda não foram derrubados, ficam abertos. “Podem ir quando quiser”. Zé do Monte, então, segue com seu passo vagaroso, desta vez se arrastando para cima, pela subida íngreme para onde seu corpo agora magro e enrugado sempre se moveu.
A+ A-