Chegadas e Partidas!

Rafaella Domingues,

Dia desses, tive a oportunidade de ouvir uma história de amor. Um encontro inesperado, num lugar distante. A história começou assim. Uma história de amor contada por uma jovem, que mais parecia fazer poesia. A poesia se faz com amor, saudade e dor, afirmam os poetas.

A jovem se denominou Saudade. Saudade com s maiúsculo mesmo, de tanto que doía a “ausência presente” do amado que partiu precocemente. Saudade era o sentimento que constituía o seu corpo e a sua alma naquele momento. A sua poesia, musicalizada, versava sobre o vivido e o desejo de viver, a dois, os sonhos e os projetos, agora interrompidos.

A morte tem dessas coisas! Ela surge e separa, às vezes inesperadamente, os casais, os amores, os amigos, os pais dos seus filhos. A dor é inevitável, é esperada, é única e deve ser respeitada, compartilhada e cuidada para ser acomodada e, quem sabe, transformada em atos de amor com a vida.

Com Saudade não foi diferente. Sim, havia dor. Os seus olhos (molhados) revelavam isso. Havia um singelo e iluminado sorriso, revelando as lembranças de um encontro feliz. Ela não buscava compreender a morte, isso ela deixou para os filósofos, teólogos e outros estudiosos. Ela sentia a sua reverberação e revelava em suas palavras que algo transcendia. Esse algo para além dela mesma era a leveza e o colorido das flores que eles plantaram nos caminhos que juntos construíram. Nesse lugar de chegada, ou partida, não havia espaço para mágoas, ressentimentos, desculpas a pedir ou palavras a dizer. O amor foi contemplado em sua plenitude. Eles puderam partir em paz, nesse momento, em estradas diferentes.

Na despedida, Saudade simplesmente agradeceu à vida pelo encontro, pela oportunidade de ter vivenciado o amor, afinal, “um único momento de beleza e amor justifica uma vida inteira”, me fazendo lembrar de Rubem Alves. É verdade!

Seguindo o seu caminho, a jovem leva as lembranças e tenta acomodar o coração. E eu, que tanto já ouvi dizer que saudade é o amor de quem fica, aprendi que saudade também pode ser gratidão pelo amor vivido.  

Gratidão, Saudade!



Venha comemoração, permaneça perdão!

Rafaella Domingues,

As datas comemorativas preocupam as pessoas. Aniversário, dia das mães, Natal, Ano Novo e tantas outras datas existentes no nosso calendário acabam por gerar preocupação e ansiedade naqueles que tentam cumprir as agendas cheias de compromissos sociais e  buscam dar conta das infindáveis demandas de ordem material.

Com a Páscoa não é diferente. Mais uma vez, a ordem dos valores é invertida. O momento da Ressureição de Jesus traz, para muitos, a mais profunda reflexão e reforma íntima, acompanhada, às vezes, por sacrifícios físicos empenhados em purificar o corpo e a alma. Essas pessoas buscam o crescimento espiritual. Em outros (muitos) casos, a reforma é material, somente do corpo. As escolhas são voltadas para as promessas de não comer carne, não comer doces e frituras, não beber, a usar determinada cor de roupa e outros infindáveis “sacrifícios”.

Outro dia conversando com um amigo que se diz ateu, fui tocada por sua sensibilidade. Ele revelou que obviamente não faz nenhum desses sacrifícios ou intenções, uma vez que não comunga dessa ideia, mas afirmou que costuma, nos seus dias, independente da época do ano, exercitar o perdão! Esse era o seu maior sacrifício. Imediatamente pensei: que exercício de alta complexidade espiritual! Ele me fez lembrar da oração de São Francisco de Assis: “Ó, Mestre! Fazei que eu procure mais, consolar que ser consolado, compreender que ser compreendido, amar que ser amado, pois é dando que se recebe, é perdoando que se é perdoado...”

É perdoando que se é perdoado!  

Humano (assim vou chamá-lo aqui) continua refletindo sobre como é difícil perdoar o outro em qualquer situação, seja na vida pessoal ou profissional. Ele lembra como é árdua a tarefa de perdoar um amigo que decepciona, um pai cruel que fere, um chefe prepotente que massacra, um colega de trabalho que “puxa o tapete”, uma namorada infiel. É difícil perdoar, não é?

E é perdoando que se é perdoado!

E perdoar não é ser passivo, submisso, tolo. Perdoar é ser pacificador, é buscar a paz, de si mesmo e do mundo, lembra Humano. Ele, nem um pouco passivo, toma as rédeas da sua vida, se responsabiliza por si mesmo e diz que escolhe perdoar porque essa atitude traz benefícios para ele mesmo e não para quem o recebe. Humano sente que precisa perdoar para conseguir caminhar pela vida de forma mais leve, sem o peso da amargura e das cenas de decepção que marcam os seus dias com desesperança, o impedindo de seguir adiante e traçar novos projetos para a sua vida.  

Perdoar é uma atitude sábia. Independentemente de como somos movidos a perdoar, seja por questões religiosas ou não, por compaixão, por amor próprio, não importa. O perdão nos restaura. O perdão nos liberta. O perdão nos presenteia com uma vida nova. E assim, ressucitamos para um novo dia, para um novo ciclo. Preciso perdoar para sarar o meu coração, assim finalizou o amigo querido. Humanos que somos, ele, eu e você, sentimos, erramos, magoamos, acertamos e podemos, todos nós, escolher o caminho do perdão. Ele nos lembra que somos humanos, aprendizes da vida.  

São tantas oportunidades de (re)pensar a vida! Que todas as datas especiais sejam momentos de reflexão sobre a nossa passagem, rápida, por essa vida, como canta Ana Vilela: “ a vida é trem bala parceiro, e a gente é só passageiro prestes a partir”. É preciso seguir, sem amarras, sem mágoas, com leveza.

É perdoando que se é perdoado!

É perdoando que sigo em frente!

É perdoando que me perdoo também!   



Repensando, a vida!

Rafaella Domingues,

     Gosto de ler. Fui tomando gosto pelos livros na infância, ouvindo as contações de histórias do meu avô e do meu pai. Hoje, ao ler, além de receber esse eterno carinho dos dois, conheço lugares e pessoas, viajo nos enredos e mudo a roupagem da minha alma, parafraseando Mario Quintana.

     Outro dia, fui surpreendida por Rubem Alves. Ele revelou uma parte interessante da sua história de vida. O texto está contido em um dos seus livros que traz um título inspirador “Se eu pudesse viver a minha vida novamente”. Contou ele que se tornou um grande escritor em decorrência dos sucessivos fracassos pessoais e familiares. Se tornou quem é porque todos os projetos de vida deram errado.

     Diante dos fracassos, da solidão e do sofrimento, narrados por ele, a sua poesia poderia simplesmente nunca ter surgido. E nós, não seríamos presenteados com a sua arte. Mas, para a nossa felicidade, ele escolheu se lançar para o novo, para o desconhecido tão temido por nós, na maioria das vezes. Ele foi corajoso. Transformou a dor em poesia.  

     Às vezes, adormecidos nas decepções e com os corações sobrecarregados de angústias e mágoas, acabamos por tolher todo o potencial criativo que trazemos em nós. Esquecemos quem somos. Não trocamos a roupa da alma. Passamos a viver com aquela impossibilidade que paralisa “ se tivesse feito isso”, “se tivesse feito aquilo”. E assim, afundamos nas lamentações, vitimizados. Esse “se” maltrata demais. E tem (muita) gente que vive assim. Eu mesma conheço várias delas.

     E “se” Rubem Alves pudesse viver a própria vida novamente? Você pode estar se perguntando. Bem, ao longo dos seus setenta e poucos anos, gostou da imagem que o espelho refletiu. Ele teve um caso de amor com a sua vida, com a história que escreveu. Por isso, nada mudaria. Viveu plenamente as suas escolhas, principalmente nos momentos nos quais a vida se mostrava dura e, por vezes, implacável.

     Mas, e você? Como responderia? Lanço um convite. Convido você a ler os capítulos do livro da vida, escritos por você. Para uns pode ser mais sereno, para outros, um pouco mais árduo. Para esses últimos, reverencie o que viveu, cada etapa, todas as conquistas, os erros, assim como os amores e amigos que passaram por você. Tudo isso construiu quem você é hoje. E para viver, não novamente, mas, plenamente diferente, lembre-se: a vida está posta. A vida pode ser mais leve, mais digna, mais autêntica, a escolha é sua. A sua vida é intransferível. Ninguém pode viver por você e cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é, como diz Caetano.

     Não existe uma receita, é verdade. Mas um caminho possível é sentir o que faz o seu coração pulsar e perceber os sinais que ele envia para você, indicando a direção a seguir. É possível que você encontre muitas e muitas pedras pelo caminho, mas acredite, você pode construir um castelo juntando todas elas.

Viva a Vida!

   


1-3 de 3