Frente às várias turbulências da história recente do país, como a arte deve se comportar? E o teatro, a arte contestadora por excelência? Essas questões estão no cerne das discussões da 5ª Semana do Teatro Nordestino, que começa nesta quarta (1º) e vai até sexta (3), no Teatro de Cultura Popular Chico Daniel.
O evento abre às 20h, com o lançamento do segundo volume Coleção Teatro Nordestino. O livro reúne textos dramáticos dos autores João Denys (potiguar de Currais Novos), Aldo Leite (MA), Lourdes Ramalho (PB), do natalense Racine Santos e de Paulo Vieira (PB).
Para Racine Santos, presidente da Associação de Dramaturgos do Nordeste, o foco do encontro será a discussão do papel do dramaturgo na cena contemporânea. "O teatro exige uma nova linguagem por parte da dramaturgia. Será que ela está traduzindo o que acontece na cultura brasileira, será que reflete o pensamento do século 21? Qual é o papel do teatro, é fazer festa para o povo aplaudir? A cena contemporânea deve levar esses questionamentos em conta", explica.
O escritor defende que o teatro deve resgatar seu papel político. "Enquanto a sociedade brasileira atravessa momentos difíceis, o que deve fazer o teatro: calar, divertir ou denunciar?".
Ele rememora a trajetória política dos palcos. "Desde a Grécia Antiga, o teatro sempre teve um papel denunciador. No Brasil, durante os anos 60, o teatro, junto com a música popular, foi o segmento mais contestador da arte brasileira. Enquanto a literatura estava envolvida em questões formais, o teatro partiu para o confronto de idéias com o regime", argumenta.
"Por isso, é importante que tenhamos espaço para levantar essas discussões durante o 5º Encontro de Dramaturgos do Nordeste, que faz parte da Semana", diz.
Autores e público
Racine Santos acredita que os autores locais estão sendo cada vez mais encenados pelas companhias daqui. "Um exemplo bom é o pessoal da Casa da Ribeira, com o espetáculo Pobres de Marré. Quem escreve é Henrique Fontes, que é um autor novo e que também dirige. Além disso, temos vários autos sendo montados no estado: em Natal, em Mossoró. E todos são escritos por autores potiguares", afirma.
"No entanto a influência do besteirol dos anos 80 gerou essa 'deformidade' que temos, principalmente nos grupos da Paraíba e de Pernambuco, que é esse teatro de escracho. Não tenho nada contra esses grupos, até porque eles estão trabalhando e têm público e bilheteria. No teatro, há espaço para todos. Mas acho que devíamos voltar a atenção à realidade cultural e política da região, do país. Não defendo a volta da tragicidade dos anos 60, daquele teatro extremamente politizado, mas será que estamos refletindo corretamente sobre o Brasil?", questiona.
Para o dramaturgo, a falta de publicações na área impede a circulação de idéias. "Por isso estamos lançando essa coleção, que terá quatro volumes e reunirá 20 autores nordestinos. No Brasil, só se publica peças de sucesso. Um exemplo é o Auto da Compadecida, que é reeditado há 50 anos. As editoras não têm interesse em publicar autores novos. Por isso, se tem trabalhado tanto com adaptações de obras literárias", acredita.
"Sem essa circulação, falta o texto. O dramaturgo é o artista por trás do teatro, do cinema. O texto de teatro é para ser falado, para ser dito, ele requer uma gramática específica do palco", conclui.
A Semana do Teatro Nordestino é uma promoção do Governo do Estado, por meio da Fundação José Augusto, com apoio da Associação de Drmaturgos do Nordeste e da UFRN, por meio do Deart e Labcena.