Vlademir Alexandre
Gilmara Benevides, durante a noite de autógrafos do livro 'Helio galvão: O Saber como Herança'
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Um intelectual que, em busca do próprio passado, acabou descobrindo a nossa história. Assim foi Helio Galvão, de acordo com o perfil traçado pela historiadora Gilmara Benevides no livro
Helio Galvão: O Saber Como Herança (160 páginas, R$ 20). A obra tem projeto gráfico e ilustrações do artista plástico Cláudio Damasceno.
A obra foi lançada na última sexta (19), durante a inauguração da praça que leva o nome do advogado, etnógrafo, historiador, professor e membro da Academia Norte-Riograndense de Letras que, se estivesse vivo, completaria 85 anos neste sábado (20).
Segundo a escritora, o interesse pela história de Helio Galvão surgiu durante a pesquisa para o livro anterior dela,
O Canto Sedutor de Chico Antônio, ensaio biográfico sobre o cantador de coco de Pedro Velho que encantou o escritor Mário de Andrade na década de 20 do século passado.
“Pesquisando a bibliografia sobre o coco, acabei encontrando os livros de Helio Galvão em que ele fala sobre o coco de zambê. Acabei descobrindo a obra de um autor que, ao empreender a pesquisa a partir do seu local de origem, acabou nos legando um
Cedida
Pesquisador aliou rigor na pesquisa ao amor pela região de Tibau do Sul.

importante conjunto de obras, como a
História da Fortaleza da Barra do Rio Grande, O Mutirão no Nordeste e as
Cartas da Praia”, enumera.
“Esses livros são grandes exemplos de um conjunto que apresenta um rigoroso método etnográfico e historiográfico”, afirma.
“Procurei Dácio Galvão, filho de Helio, pois ele tinha estado à frente do processo de tombamento da casa de Chico Antônio. E perguntei se havia alguém pesquisando a vida do pai dele. Então, fiz a proposta de realizar uma biografia intelectual de Helio Galvão, que foi aceita de pronto”, diz.
Para preparar a obra, foram dois anos de pesquisa e oito meses de escrita. “Não tive dificuldade alguma para empreender a pesquisa. A família facilitou o acesso ao acervo, às pessoas... As dificuldades que tive foram emocionais, pois esse livro me exigiu uma análise mais profunda. O primeiro foi o resultado de uma dissertação de mestrado, no qual tive orientação, acompanhamento da pesquisa. Nesse trabalho, não. Então precisei formar um melhor entendimento, uma análise mais profunda da pessoa”, explica.
“Foi um verdadeiro exercício de História Cultural, refazer os roteiros da trajetória intelectual de Helio Galvão. Como intelectual, ele soube interpretar as origens culturais dele por meio da genealogia e da história do lugar de onde veio”, cita.
Mesmo tendo deixado Tibau do Sul, Helio Galvão de fato não abandonou o local. “Ele se apoiou no método etnográfico para fugir da análise puramente emocional”, acredita.
“Aquela região, de Goianinha, Pedro Velho, Tibau do Sul, Canguaretama, é muito importante para a História do período Colonial em nosso estado. Quando Helio resolve investigar a história de sua família, traz à tona a história daquela região. Refazendo o percurso da historiografia do lugar, ele vai resgatar pessoas como João Lostao Navarro, que veio ao estado na expedição de Mascarenhas Homem e se tornou um dos mártires de Uruaçu”, diz Gilmara Benevides.
“Nessa pesquisa, Helio Galvão vai trazendo importantes informações sobre a presença holandesa no Rio Grande do Norte, sobre a Fortaleza dos Reis Magos, a Revolução de 1817 e a participação de André de Albuquerque”, enumera.
A pesquisa historiográfica do autor era marcada pelo rigor com as informações colhidas, cuja falta era uma falha recorrente em trabalhos potiguares realizados na área da História.
“Helio Galvão era advogado, profissão que exerceu por muitos anos e na qual era bastante respeitado. E, como advogado, ele não acreditava em fatos sem provas. Então, ele aplicava o método historiográfico com bastante maestria, comprovando tudo o que pesquisava”, informa.
“Ele tinha posicionamentos bastante fortes. Era um intelectual diferenciado, religioso, de estilo fluente e com uma interpretação muito pessoal da história local. Como era um membro respeitado na comunidade, conseguiu dar visibilidade às suas pesquisas”, pondera.
Nessa trajetória, o historiador não deixou de criar algumas polêmicas. “A principal delas foi em relação à denominação da Fortaleza dos Reis Magos. Ele comprovou que a edificação era uma ‘fortaleza’, e não um ‘forte’, como era chamado até então. Outra discussão muito famosa foi sobre o nome da capital do Estado. Ele defendia que o correto seria ‘Cidade de Natal’, em detrimento do suposto nome oficial ‘Cidade do Natal’”, lembra.
Escrever a biografia do escritor foi também uma forma da autora se aproximar da herança cultural existente em nossa terra. “Entender a trajetória de Helio Galvão é importante para que comecemos a observar que nós temos que conhecer melhor e criticar a obras desses autores que se voltaram para nossa História. Ainda somos pouco informados e pouco sabedores de nosso histórico, principalmente no meio intelectual”, acredita.