Fotos: Divulgação
Para Cacá Carvalho, a criação de uma escola de técnica de teatro é uma conquista.
O ator Cacá Carvalho é um veterano dos palcos brasileiros. Nascido em Belém do Pará, deixou sua cidade natal para estudar teatro nos grandes centros, no final da década de 60. Nos anos 70 e 80, já estabelecido no eixo Rio - São Paulo começou a chamar a atenção da crítica e público, com espetáculos como A Ley de Linch, de Walter Quaglia e Macunaíma, baseado na obra de Mário de Andrade. Anos mais tarde, passa a atuar também como diretor, em adaptações de Guimarães Rosa (Grandes Sertões) e Machado de Assis (O Alienista), para a Escola Livre de Santo André.
Seu momento de maior popularidade, no entanto, foi quando interpretou o personagem Jamanta, nas novelas Torre de Babel (1998) e Belíssima (2005), ambas de Sílvio de Abreu. Ano passado, participou da controversa micro-série A Pedra do Reino, que dividiu opiniões, devido à sua abordagem ousada para a televisão aberta.
No dia 27 de março, data em que se comemora o Dia Mundial do Teatro, Cacá Carvalho esteve em Natal para participar da aula inaugural da Escola Municipal de Teatro, a primeira do Nordeste e uma das poucas do país a oferecer formação técnica na área.
Em entrevista ao Nominuto.com, concedida pouco antes de se apresentar com o espetáculo Homem de Flor na Boca, no teatro Sandoval Wanderley, o ator fala sobre a necessidade de escolas de teatro no país, critica a centralização de recursos públicos no eixo Rio-São Paulo e revela detalhes sobre seu próximo projeto, O Dobro de Cinco, filme baseado nos quadrinhos de Lourenço Mutarelli e ainda em fase de pré-produção.
Nominuto - No dia Mundial do Teatro (27 de março), o Brasil tem o que comemorar?
Cacá Carvalho - Acredito que o principal motivo de comemoração seja o fato de o teatro, mesmo neste mundo de hoje, ser uma forma de arte, que coloca o homem diante do homem, sem interferência tecnológica. Isto cria a possibilidade que algo aconteça entre o artista e o espectador, por meio do discurso de um e da presença do outro. Esta é uma razão. Outra é que apesar de todas as políticas aparentemente favoráveis, mas que na realidade são adversas, o teatro resiste. Principalmente quando se desloca do eixo Rio – São Paulo que, do ponto de vista da cultura, é escravocrata, coronelístico. Lá, o poder do dinheiro da produção e da mídia faz com que a coisa fique centralizada no que se acredita ser a parte “desenvolvida” do país. Aí, se esquece de que existe o Amapá, o Acre, o Rio Grande do Norte – tudo isso é Brasil. Esta centralização no eixo é uma coisa absurda e é preciso que alguém grite. Há sim o que se comemorar, mas também é preciso que se faça um alerta.
NM - Nas últimas semanas foi apresentado ao Senado o projeto de uma Lei Nacional do Teatro, que prevê a criação de uma secretária dedicada à produção teatral. No entanto, uma das críticas ao projeto é justamente o temor de que este novo órgão dê continuidade a esta centralização dos recursos na região Sudeste. A criação de uma Secretaria Nacional de Teatro atrapalharia ou ajudaria na solução deste problema?
CC - Eu não sei se a criação de um órgão deste tipo seria a solução. Na verdade, eu não sei qual é a solução porque não é a minha tarefa. O que eu sei é que do jeito que está não dá para continuar. A minha presença em Natal e em Belém do Pará, onde eu nasci e volto sempre, me dá condições de dizer que as coisas estão erradas. Isso eu posso afirmar com certeza. Daí pra frente é com as pessoas que cuidam da distribuição do meu e o do seu dinheiro público. E a maneira como eles estão distribuindo estes recursos para o teatro é imoral.
NM - Em Natal está sendo criada a primeira escola de teatro de nível técnico do Nordeste. Como você avalia esta iniciativa, no sentido de contribuir para esta descentralização e para o fomento de uma cena na cidade e na região?
CC - É um exemplo para o país. A criação dessa escola é motivo de comemoração, mas também de reflexão. Quando você pensa que em um país continental como o Brasil só existem cinco escolas de teatro com nível técnico profissionalizante, num país onde existem milhões de jovens que poderiam estar estudando teatro... É uma geração que nós estamos perdendo. Quando uma escola como esta abre, é uma gota no deserto. A prefeitura de Natal está de parabéns neste sentido. No entanto, é preciso notar que por trás desta ação há uma dúzia de artistas que já se foram e outros que continuam batalhando para que outras gerações possam ter condições melhores para desenvolver suas capacidades artísticas. Mais do que profissionais qualificados, eu espero que esta escola forme gente que faz teatro. Não simplesmente artistas, que sejam proprietários e dominem ferramentas e processos criativos, mas que sejam qualificadas, que saibam o valor e a posição que o ator ocupa no mundo. O valor disto numa cidade como Natal é incomensurável.

O ator na micro-série
A Pedra do Reino, dirigida por Luiz Fernando Carvalho.

NM - Você mencionou uma geração “perdida”. Em que sentido estamos perdendo os jovens atores e profissionais do teatro? Que caminhos poderiam ser tomados para evitar ou minimizar os efeitos disto?
CC - Digamos que o Brasil tenha 300 mil jovens distribuídos no país inteiro – o que não é verdade, mas trabalhemos com este número. Se 3% desses jovens se interessassem por teatro, seriam cerca de nove mil. Mas acontece que nós não temos nove mil bancos de escola de teatro no país para atender esta necessidade. Quando digo que estamos “perdendo” esta geração, é neste sentido. Temos uma necessidade, mas não temos como atendê-la. Ainda assim nós continuamos fazendo, mas fazemos por intuição. Só que isso acaba resultando em profissionais que têm um horizonte de estudo e conhecimento limitado, desatualizados com as novas técnicas de interpretação. O profissional precisa de qualificação e, para isso, precisa de escolas. A alternativa, qual seria? Fundar escolas, abrir escolas! (breve pausa) Evidente que não é o Governo que deve abrir estas escolas, mas sim os artistas que devem pressionar o poder público neste sentido. E os artistas estão fazendo isso, mas o que eu vejo é uma insensibilidade geral. Não é possível que no Acre não haja uma escola de teatro, em Mossoró, em Jaú (no interior de São Paulo). Porque que uma pessoa que tem potencial precisa sair de Rio Branco pra São Paulo, por exemplo, pra estudar teatro? É um absurdo isso.
NM - No ano passado, você participou da micro-série A Pedra do Reino, baseada na obra de Ariano Suassuna, que dividiu opiniões. Muita gente classificou a série como “incompreensível" e inadequada para a tevê aberta. Você concorda? A televisão é um veículo adequado para levar literatura ao público médio?
CC - Existe certo preconceito em relação a estas questões, que dizem que a televisão atende o público médio, e que este público merece qualidade média. Isso não é verdade. Eu acho que este público médio tem que assistir Guimarães Rosa, sim! O público tem que tomar conhecimento da existência de Câmara Cascudo, da importância de Monteiro Lobato, de quem é Ariano Suassuna. E não só de um Sílvio de Abreu, de uma Maria de Adelaide Amaral ou de um Manoel Carlos, que também são importantes. Tem que haver espaço para tudo. Se a opção do [diretor de
A Pedra do Reino] Luís Fernando Carvalho foi adotar uma estética e uma narrativa pouco acessíveis é outra questão. Mas isto precisa acontecer e ainda bem que ele está brigando para que aconteça. Eu gostaria que outros diretores também brigassem por isso.
NM - Ainda assim, dizem que a série foi considerada um fracasso pela Globo, que teve ibope baixo...
CC - É, dizem isso. Mas A Pedra do Reino entrava às onze e quarenta da noite e deu um ibope médio de sete pontos. Se a população do Brasil for de, digamos, 180 milhões é bastante gente vendo Ariano Suassuna. Não dá pra pensar em Ariano Suassuna como se fosse Gilberto Braga, com todo respeito aos dois.
NM - Como está a produção do seu próximo filme, O Dobro de Cinco?
CC - (Supreso) Ah, você sabe sobre
O Dobro de Cinco? É um projeto muito ambicioso, pois será o primeiro filme brasileiro em 3D. Nós já temos seis minutos filmados, que devem ficar prontos por volta do dia 10 de abril. Por ser em 3D e por ser adaptação de uma história em quadrinhos, o filme tem um trabalho de criação enorme, que envolve computação gráfica, o uso do cromaqui, etc. É um projeto que custa bilhões. Só de computação gráfica é uma fortuna. Para viabilizar o filme, são necessários pelo menos três parceiros internacionais. A Dinamarca já sinalizou com 30% do orçamento. No Brasil conseguimos outros vinte, mas faltam ainda 50%. Estamos com o material debaixo do braço, rodando o mundo atrás de investidores. É um projeto difícil. O meu personagem, o detetive Diomedes (foto à direita), pesa 180 quilos. Eu preciso de duas horas e quarenta para colocar a maquiagem
(risos). Mas o resultado está ficando fantástico. Lourenço Mutarelli é um gênio do quadrinho nacional.