Alex de Souza
Jorge Salomão: "O Brasil é como uma planta que brota entre as pedras"
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Um porra-louca de respeito. O poeta baiano Jorge Salomão, figura emblemática da cena cultural carioca há pelo menos 20 anos, esteve em Natal durante o Encontro Natalense de Escritores, apresentando um novo trabalho: o CD
Cru Tecnológico, que traz vários de seus escritos, acompanhados de um tratamento musical arrojado.
Acostumado tanto aos bastidores da produção, quanto às luzes do palco, Salomão foi testemunha ocular de um movimento que influenciou decisivamente a cultura brasileira na segunda metade do século 20, o Tropicalismo. Afinal, o irmão dele, Waly Salomão, foi um dos principais artífices da poesia tropicalista.
Segundo Jorge Salomão, muito da poética dele e de Waly foi fruto de uma juventude privilegiada vivida na Bahia.
“Quando era pequeno, eu, Waly e minhas irmãs, brincávamos sempre de teatro em nossa casa, em Jequié. Tivemos uma infância rica. Era a época da Rádio Nacional, com cantoras como Marlene, Linda e Dircinha Baptista. Na cidade também existiam três cinemas - hoje não tem mais nenhum - e neles nós assistimos a todos os filmes da chanchada, depois o neorealismo italiano”, lembra.
“Eu e o Waly sempre estávamos envolvidos em atividades diferentes, criamos até um clube de filatelia. Nosso pai era sírio e, apesar de não ter estudado, se preocupou em aprender português. E mamãe era poetisa, tocava bandolim. Enfim, nossa educação foi marcada pela liberdade, pela criatividade. Era uma coisa tribal. Papai fechava a loja e todo mundo ia para a cozinha. Minha mãe fazia grandes jantares e quem estivesse visitando a casa participava”, diz.
O ambiente familiar foi essencial para despertar o interesse pela literatura. “Na juventude, eu li todo o romance nordestino, descobri a obra de Rachel de Queiroz, tive meus primeiros tesões lendo Jorge Amado, com toda sua criatividade e seu erotismo”, declara.
“No curso clássico, em Salvador, nós descobrimos Jean Paul Sartre e passamos a ler Marx. Éramos conhecidos como os ‘vermelhos’ pelos outros alunos”, completa.
“Foi lá que conhecemos Glauber Rocha, com os cabelos desgrenhados, escrevendo em jornais. No meu primeiro dia em Salvador, indo para o colégio, uma menina magricela subiu no ônibus comigo. Desci, fui pra escola e, quando sentei, ela estava na cadeira do lado. Era Dedé, que foi a primeira mulher de Caetano e até hoje é minha amiga. Tinha essa sincronicidade. Essa Bahia barroca, suja, exerceu uma influência muito grande sobre nós. Era uma pseudo ‘Paris dos anos 20’, um ambiente mágico”, descreve.
Toda essa bagagem desembocou no surgimento da Tropicália, em pleno regime militar. “As coisas aconteceram isoladamente e coletivamente, ao mesmo tempo. O Tropicalismo foi algo espetacular. Estava ocorrendo uma lobotomização da cultura brasileira. A juventude estava proibida de pensar, veja o que aconteceu com a Universidade de Brasília, que foi fechada. A ditadura dos militares foi a coisa mais terrível da História do Brasil. E ainda assim, nasceu aquela exuberância da poesia, da música tropicalista. É como uma planta que vai existindo por entre as pedras. Essa é a definição que eu tenho do Brasil, algo que insiste em brotar, mesmo nas piores condições”, defende.
Confira Jorge Salomão recitando os poemas
Seco,
Do Sertão ao Mar e
Código de Explosão para a
TV Nominuto.