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O cinema e a nova era digital

Sócio-diretor da Casa de Cinema de Porto Alegre, Giba Assis Brasil esteve em Natal para Ciclo de Debates no Cefet.

Por Vinícius Menna
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Divulgação/Além das Redes
Giba (dir) mostrou o lado do cinema em relação às novas tecnologias.
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Dentro da programação do Ciclo de Debates "Além das Redes de Colaboração", que foi realizado no auditório do Cefet durante a semana, a sexta-feira (10) foi a noite de pensar na construção de uma estética superadora do ideal romântico que declarou a originalidade como a única expressão autêntica da cultura.

A idéia do evento é abordar desde educação, ciências biológicas, direito até as tecnologias propriamente ditas. É proposta do Além das Redes democratizar as novas tecnologias para que as pessoas tomem conhecimento do que está acontecendo no novo mundo onde tudo passa pela tecnologia.

Na mesa de debates, esteve Giba Assis Brasil, sócio-diretor da Casa de Cinema de Porto Alegre – produtora de vídeo que ligada ao Projeto Software Livre teve a idéia de montar o debate.

Além dele, o rapper BNegão, defensor da Cultura Livre, e o engenheiro de redes e um dos maiores conhecedores do movimento "tecnobrega" em Belém do Pará, Ézyo Lamarca, participaram da mesa.

Gilberto José Pires de Assis Brasil, ou Giba, é de Porto Alegre. Ele é curador e debatedor no Projeto Além das Redes. O gaúcho é roteirista, montador, jornalista, professor do curso de Realização Audiovisual da Unisinos desde 2003 e do curso de Comunicação da Universidade federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) de 1994 a 2005.

É sócio-diretor da Casa de Cinema de Porto Alegre. Foi diretor do longa-metragem Verdes Anos (1984), do longa em super-8 Deu Pra Ti Anos 70 (1981) e do curta Interlúdio (1983). Foi roteirista de vários curtas, dos longas Me Beija (1984), O Mentiroso (1988) e Super Colosso (1995), das minisséries de tevê Agosto (1993) e Luna Caliente (1998).

Além disso, Giba é montador dos longas Tolerância (2000), Houve Uma Vez Dois Verões (2002), O Homem Que Copiava (2003), Meu Tio Matou Um Cara (2005), Sal de Prata (2005) e de mais de 30 curtas, entre eles Ilha Das Flores (1989), Esta Não é a Sua Vida (1991), Deus Ex-Machina (1995) e Dona Cristina Perdeu a Memória (2002).

A seguir, o bate-papo entre a reportagem do Nominuto.com e Giba Assis Brasil.

Nominto - Como é o projeto da Casa de Cinema de Porto Alegre?
Giba Brasil - É uma produtora de cinema independente, o que significa que não está ligada à nenhuma grande estrutura de produção nem a emissora de televisão e fora do eixo Rio-São Paulo, ou seja, num lugar que tradicionalmente a produção de cinema existe, mas não dura muito. A gente está fechando 20 anos de produção da Casa de Cinema. Então, já tem muita história para contar.

NM - Você poderia contar um pouco dessa história?
GB - Antes de ter fundado a Casa de Cinema, nós fazíamos filme Super 8 e iniciamos uma espécie de movimento que gerou filmes interessantes. O mais conhecido foi o “Deu Pra Ti anos 70”, de 1981, um depoimento de geração. Depois, a gente chegou a tentar fazer uns longas em 35mm e eu fiz um filme chamado “Verdes Anos” nessa época, em 1983. Mas aí, já estava exatamente no momento de crise da Embrafilme [empresa estatal brasileira produtora e distribuidora de filmes cinematográficos que existiu de 1969 a 1990] e foi meio complicado.

Logo em seguida a gente passou a fazer curta. Durante muito tempo passamos produzindo curtas, principalmente no período da Lei do Curta. A gente fez filmes como “O Dia em que Dorival encarou a guarda”, “Barbosa”, Ilha das Flores”, num tempo em que a produção de curta-metragem era muito grande.

Aí veio o vendaval Collor e a gente teve que passar a produzir para o exterior porque o Brasil não tinha muito espaço. Então, produzimos para a TV européia, para a TV inglesa, alemã, para Ongs americanas, o que era uma contradição, vivendo fora do eixo, fazendo questão de fazer cinema sobre a região onde a gente vive, mas sendo visto só na Europa porque no Brasil não tinha mercado.

Com a retomada a gente passou a fazer longa e nos últimos sete anos a gente fez seis longas-metragens , o último agora foi o “Saneamento Básico, o filme”, do Jorge Furtado. E já estamos com dois outros projetos. O [Carlos] Gerbase fez um filme de baixíssimo orçamento chamado “3 Efes”, que vai ser lançado agora em dezembro. Vai ser o primeiro filme brasileiro a ser lançado em quatro mídias. No mesmo dia, ele vai ser lançado no cinema, vai ser lançado em DVD (em bancas), na internet através do portal do Terra e vai ser lançado na TV, no Canal Brasil.

A Ana Luiza Azevedo está rodando o “Antes Que o Mundo Acabe”, um filme de orçamento um pouquinho maior, não alto, mas com um pouco mais de fôlego, que vai ser lançado no ano que vem.

NM - Como surgiu o projeto Além das Redes?
GB - Estamos há algum tempo com o projeto Software Livre do Rio Grande do Sul e o objetivo inicial do projeto era fazer um documentário sobre Software Livre, que é um negócio que está na nossa perspectiva ainda, mas a gente não conseguiu encontrar o formato adequado, a forma de financiamento, mas é um projeto eu a gente vai fazer.

A gente chegou a documentar o Fórum Internacional do Software Livre, que acontece em Porto Alegre há oito anos, a gente documentou o Fórum do ano passado, mas ainda sem ter grana e sem ter o formato que o documentário teria. Mas provavelmente no ano que vem a gente vai fazer esse documentário.

Nessa discussão com o Software Livre, a gente discutindo as questões em comum que tem entre problema de produção de cinema, problema de gerenciamento de direitos em relação a questão de software, pintou a idéia de chamar mais gente para essa conversa que a gente estava tendo, chamar especialistas de várias áreas diferentes para a discussão a respeito dessa nova sociedade, a maneira como a gente vai remunerar a autoria num mundo em que o original e a cópia são iguais. Estamos adiante daquilo que [Walter] Benjamim chamou da Era da Produtibilidade Técnica. Agora a arte não só é reproduzida tecnicamente como não existe mais diferença entre o produzido e a cópia. E como é que se lida com isso? A legislação que se tem sobre o direito autoral é uma lei do século 19, que lida da forma mais reacionária e absurda possível. Termina favorecendo o interesse das grandes corporações, e não dos autores. Como é que vai remunerar a autoria nesse novo mundo? Como esse mundo se liga com suas diversas interfaces é o objetivo desse seminário.

NM - Como o cinema está conectado às novas tecnologias?
Divulgação/Além das Redes
Público da sexta-feira (9) foi pequeno.
GB
- O cinema está numa crise. O cinema brasileiro, que teve um momento de retomada bem interessante, chegou a ter três anos atrás uma idéia de que o público estava crescendo, mas de lá para cá o público começou a cair. E não é só o público do cinema brasileiro, é o público do cinema em geral. O formato de negócio sala de cinema está em crise no mundo inteiro. As salas estão se digitalizando, mas não sabem ainda exatamente como vão lidar com esse modelo novo de negócio. Holywood continua sendo dona do mercado internacional no cinema, mas tem muito receio de que transformação é essa que vai acontecer, de qual vai ser o último passo para essa transição do analógico para o digital, que ainda não foi dado e está para ser dado e que está se relutando em dar, um pouco por receio de perder esse modelo de negócio.

Mas eu acho, particularmente, que o cinema brasileiro não tem nada a perder. Nosso cinema, a cinematografia terceiro-mundista só tem a ganhar com a mudança no modelo de negócio. É a possibilidade de novos contatos com o público, de produção. Está tudo em aberto. Estamos num momento de crise e essa situação, embora modifique um pouco a viabilização dos projetos que a gente tenha, em alguns momentos gera idéias novas, perspectivas novas que a gente tem que aproveitar.
 
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