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O que a Calypso tem a ver com o Linux?

Ezyo Lamarca participa do Movimento do Software Livre no Pará. Ele encontrou uma relação entre o 'Tecnobrega' e a democratização de programas.

Por Vinícius Menna
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Divulgação/Além das Redes
Lamarca explica como rede digital pode servir à democratização do conhecimento.
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O engenheiro Ezyo Lamarca fez parte da mesa de debates do Ciclo de Debates "Além das Redes de Colaboração", encontro que proporcionou reflexões dentro do contexto das novas tecnologias e da diversidade cultural.

Fundador do Grupo Linux Pai d'Égua, Lamarca é ainda presidente da AUSLA (Associação dos Usuários de Sistemas Livres e Abertos), diretor adjunto da SUCESU-PA (coordenador do Grupo de Inclusão Digital) e um dos principais divulgadores e promotores do Software Livre dentro do Estado do Pará.

Como presidente da Associação dos Usuários de Sistemas Livres e Abertos, em Belém, busca conhecer e agregar ações que contemplem as tecnologias livres e abertas com a cultura regional, sendo um dos maiores conhecedores do movimento paraese denominado "Tecnobrega" – onde está inserida a banda Calypso - como exemplo de cultura livre bem difundida e bem sucedida.

Neste contexto, ele traz à tona o exemplo prático dos movimentos Tecnobrega e Cultura livre para tratar as convergências e a estética da multidão.

A seguir, a conversa de Ezyo Lamarca com a equipe de reportagem do Nominuto.com.

Nominuto - O que é o movimento Tecnobrega?
Ezyo Lamarca - Em primeiro lugar, eu não sou do movimento. Eu sou engenheiro. Participo do movimento Software Livre, mas como a gente percebeu uma similaridade entre o Tecnobrega e movimento Software Livre, a gente começou a ver que tinha algo em comum realmente e foi atrás desse algo em comum.

Então, como é que funciona o Tecnobrega hoje em Belém: você tem mais de 100 festas de aparelhagem em Belém. O que é uma festa de aparelhagem? Imagina um amontoado de altos falantes, caixas de som. Imagine também algo parecido com o controle de uma nave espacial. Isso é o Tecnobrega hoje em Belém. A festa de aparelhagem reúne muita gente em um ambiente onde é tocado o Tecnobrega, que seria uma evolução natural do brega, seria o brega mais uma música mais digital, com uma batida digital.

O que também destaca o Tecnobrega hoje no cenário musical é a questão da distribuição de CDs. Ela não é feita da forma tradicional, mas sim usando camelôs como principais distribuidores. Tem vários níveis, mas esse é o que funciona muito bem, no qual a pessoa grava um CD ou DVD e passa para um camelô distribuir livremente. O artista ganha dinheiro não com a venda do material, mas sim com shows.

É a questão da livre distribuição. Não é o cd que vai te dar lucro, mas sim quando alguém diz "Ah, gostei daquele som, vamos chamar aquele cara para tocar aqui no interior" ou em qualquer lugar do Pará, Maranhão ou Macapá. É isso que dá dinheiro pra eles hoje, e não a venda de CDs diretamente.

NM - E como é um software livre?
EL - Bem, conceituando um Software Livre, é um software que você pode ver como foi feito e distribuir livremente, fazendo alguma modificação nele. Então tem a questão do compartilhamento do conhecimento. Tu não tem aquela constituição profissional de software, onde tem uma empresa detentora do software. Ele é um bem da comunidade.

Colocado dessa forma, tu podes olhar, modificar, estudar e distribuir cópias. Os valores são bem parecidos com os que a gente verifica no Tecnobrega. Então você vê essas semelhanças de distribuição, compartilhamento, que fazem esses movimentos convergirem para uma coisa nova que a gente chama de Cultura Digital Livre.

NM - Como você vê as convergências culturais dentro desse contexto de novas tecnologias?
EL - É um caminho irreversível. Não tem como parar a roda da história. Se tu tiraste a materialidade do produto intelectual, ou seja, uma música é algo material, um carro é material, um software é imaterial, a partir do momento que isso cai na Internet, não tem como conter. É como não conseguir conter o estouro de uma boiada.

Antigamente, as mídias eram cerceadas por monopólios muito bem definidos: empresas de grandes softwares, empresas de grandes músicas, empresas de grande cinema. Hoje em dia, a população está se apropriando dessa tecnologia na produção desse conhecimento, seja música, software ou filme. Digamos que a gente está quebrando os latifúndios analógicos do século passado e está construindo uma terra livre onde quem tiver criatividade vai prosperar.

NM - Como você analisa a relação das tecnologias com a livre expressão?
EL - Eu diria que elas são fundamentais. Sem elas, não seria possível, por exemplo, a distribuição de um software pro mundo todo. O Linux é o carro-chefe do software livre hoje. O Linux basicamente controla o hardware do computador: teclado, mouse e monitor. Ele só é o que é hoje devido ao “boom” da internet. E a internet também progrediu. Ela evolui devido ao Linux. As curvas de crescimento dos dois são bem parecidas. Os provedores começaram a usar Linux no começo da internet.

Então, sem essas tecnologias de software livre, sem movimentos como o Tecnobrega ou o cinema da Nigéria, a gente não teria condições de estar expressando o conhecimento de forma tão ampla e tão global como a gente consegue hoje.

NM - E como fica a originalidade dentro da diversidade cultural na era digital?
EL - Quando tu entra num esquema tradicional de produção de software, de produção de CD ou de produção de cinema, querendo ou não, tu tem que se enquadrar no que é vendável. Você tem cronograma para lançar um software, cronograma de lançar um CD, uma música que vai estourar ou não, então tu te enquadra.

Quando tu tem a possibilidade de tu fazeres aquilo sem esse compromisso com a indústria, tu tem essa originalidade de criar algo realmente novo, dá para te fazer a tua necessidade como pessoa, como programador, músico, e de quem gostar do teu trabalho. Tu traz também essa questão da originalidade por causa da tecnologia. Você sabe o sistema de massificação da indústria e cai num sistema de produção individual e muito criativa

NM - O que é o Linux Pai d’Égua?
EL - O Linux Pai D’égua foi o primeiro grupo de Software Livre do Pará. Foi criado em setembro de 2001 e hoje já é um dos maiores grupos regionais de Linux do Brasil. Ele basicamente tem uma lista de discussão e tem várias ações como o Fórum do Software Livre de Belém, que está na quinta edição, tem mais de 500 usuários no Pará e fora do Pará. A gente atua dessa forma, levando o software livre para onde ele precisa chegar, não só nas faculdades ou empresas de tecnologia, mas para outros campos agora.
 
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