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Resenha: Mãos de Cavalo

Jornalista Rodrigo Levino comenta romance do escritor Daniel Galera.

Por Rodrigo Levino, especial para o Nominuto
Tamanho do texto: A
Reprodução
"Mãos de Cavalo", de Daniel Galera (2006, 192 páginas, R$ 35,50)
Uma dos referenciais mais pobres dentro da literatura brasileira - e isso se repete na chamada nova literatura; a lista de autores com seus vinte ou trinta e poucos anos apontada em matérias frias dos cadernos culturais - diz respeito a cultura pop.

Os autores não conseguem emular com exatidão (nem próximo disso) o amplo conjunto de informações que forjaram a sua geração e continuam alimentando a atual, num caldeirão de música, internet, cinema, vídeo game e HQs entornando o caldo com Dostoievski e Hilda Hilst.

Ou se perdem numa tentativa frustrada de soar antigo e cheio de classicismos, como se buscassem uma chancela dos autores consagrados e da crítica, ou adotam um discurso de ruptura que não se concretiza diante da linguagem descuidada, muitas vezes chula, numa busca dispensável por uma tal de visceralidade e crueza, que servem no fim das contas para encobrir o principal: não sabem contar uma história.

E o pior, não parecem aprender com o passar do tempo e a publicação de mais e mais livros. Apelam para a pirotecnia.

Esse não é o caso de Daniel Galera, o escritor mezzo gaúcho mezzo paulistano autor do romance Mãos de Cavalo, lançado em 2006 pela Companhia das Letras.

Desde o livro de contos Dentes Guardados, passando por Até o Dia Em Que o Cão Morreu e findando em Mãos, o que se percebe são saltos de qualidade nas narrativas, no esmero da técnica e da linguagem e o melhor, na emulação de referenciais de cultura pop com pitadas de erudição, todas dosadas com tamanho talento que ele finda não sendo nem pedante, muito menos raso, ou seja: é um grande escritor, uma promessa concretizada.

Em Mãos de Cavalo a referência às HQs de super-heróis e aos jogos de vídeo game é tão sutil, entranhada que está na personalidade do protagonista, que sobressai a formação da identidade através de uma narrativa entrecortada, que não serve para jogar areia nos olhos do leitor, e sim para dar uma idéia ampla de como cada pequeno fato no período de pré e da adolescência, se refletiram em maior escala na vida adulta de Hermano, ou Mãos de Cavalo.

O alicerce que o autor detém dessa cultura de quadrinhos o torna um escritor visual de tal forma que o leitor, desde o princípio, sente-se mais um da turma do bairro, incomoda-se com os relatos infindáveis do Bolita sobre suas aventuras sem deixar de se divertir com eles, reprova a postura misógina do Uruguaio sem deixar de reconhecer seu mérito de conquistador, e pára diante de Bonobo compartilhando a sensação de medo e admiração, raiva e estupefação.

Assim como parece acompanhar Hermano aos dez anos movendo cada músculo do corpo em disparada na sua bicicleta ou sentindo o gosto metálico de sangue na boca depois da queda.

Os personagens criados por Galera assistiram aos nossos filmes, jogaram os nossos jogos, descobriram da mesma maneira atabalhoada a sexualidade e as responsabilidades da vida adulta, o tédio do casamento e a eterna busca por algo que se perdeu na infância, na liberdade inconseqüente da adolescência, carregando a culpa típica dessa inconseqüência.

Gera-se a cada página uma empatia que torna inevitável o conforto e ate a nostalgia diante da caracterização de cada um da turma, pois já tivemos uma igual e ao que parece com aquelas mesmas pessoas.

Dá também a quase certeza que existe um acerto de contas com o nosso passado que mais dias menos dias vira à tona e nos cobrará a coragem para resolvermos as pendências.

Nessas referências às coisas da adolescência Galera se detém de maneira tão caprichada que acaba claudicando nas narrativas da vida adulta do personagem, coisa perdoável diante das reviravoltas que a história dá, e de cenas descritas com um detalhismo assombroso, como a agonia do parto da mulher de Hermano, o bem sucedido médico, de postura austera, desolado por um eterno sentimento de culpa.

O livro não deixa de ser uma história de redenção, oferecida que é ao protagonista a oportunidade de reaver tudo que repentina e desastrosamente quebrou o sentimento de que as pessoas, o lugar, as histórias, nada daquilo se dissociaria da vida dele.

E nesse diálogo com o passado, forjado nos mesmos referenciais de toda uma geração, com a vida adulta marcada por sentimentos nunca antes tão presentes como impotência, solidão e atonismo, Galera escreve um livro que não é apenas de formação, mas serve como memorando para toda uma geração.

Coincidentemente a nossa geração, a que cresceu nos escombros da falta de referenciais político e ideológico e deu vida inclusive por causa dos referenciais de cultura pop ao que hoje pode ser demarcada com classe média.

Uma geração que tenta mover o mundo, às vezes embalado como se fosse uma bicicleta em disparada e um pouco adiante sentindo algum prazer no gosto de sangue que invade a boca, que teve ou continua tendo uma única motivação: precisa estar lá.
 
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